sábado, 17 de abril de 2010

Náuseas de Estudante - cap. 2 (final)

...
...



Acostumou-se a apresentar-se “Hector Dias, à sua disposição” ou apenas “Hector. Muito prazer”, muito antes que começasse a ser chamado de “HD”, por amigos de faculdade, literatos suspeitos e gente do meio cultural. Vez ou outra, “Hobsbawn”, por gracejo de Flávio Toledo, leitor do historiador inglês.

Isso porque HD descobrira que seu extenso nome era motivo de olhares e sorrisos de mofa,por soar pomposo, a evocar personalidades literárias, em comentários semi-eruditos, de gosto duvidoso, em curiosidade quanto ao parentesco e etimologias.

- Outro parente dos Guimarães!

- “És filho de uma pisadela e de um beliscão

- Espero que ele não encontre um Aquiles.

E ele se deixava a lembrar de Hektor, “o que segura firmemente”, perseguido três vezes em volta da cidade de Ílion, ou Tróia, como comumente conhecida. Cena de “A Ilíada”, de Homero que ele lera em tradução duvidosa (antes de ler a do Haroldo de Campos, tempos depois), “Canto, ó Deusa, a ira de Aquiles...”, que vai se vingar da morte de seu amigo Pátroclo, morto por Hektor, que HD reconhecera num certo quadro (ou escultura?) do dinamarquês Bertel Thorwaldsen, “Heitor despedindo-se de Andrômaca”, onde Hektor ergue nos braços um bebê, ao lado de sua esposa Andrômaca, atendidos por uma serva prestativa, e sob o olhar de um soldado, com arco e escudo, de prontidão, à espera do oficial. Então, na famosa guerra, Hektor é morto por Aquiles (aquele só vulnerável no tendão do pé), que arrasta o corpo do troiano, atado ao seu carro de combate, ao redor das muralhas da cidade sitiada (e depois incendiada,por astúcia de Ulisses e seu cavalo de Tróia), enquanto o rei Príamo, de Tróia, roga ao guerreiro grego que dê sepultamento digno a seu filho, “Canta a bravura e a magnanimidade de Aquiles, filho de Peleu...”

Ou então pensava no maestro tupiniquim, Heitor Villa-Lobos, e deitava-se a ouvir aquelas tropicais Bachianas, e outras composições, das quais ouço entendia, pois seu forte nunca foi (nem será) a música, e pensava na Semana de Arte Moderna de 22, e um maestro entrando de chinelas com sua cabeleira revolta à la Beethoven, algo assim.

E aquela referência aos Guimarães? Certamente os escritores, a serem sempre lembrados, desde o remoto autor de “Escrava Isaura”, Bernardo Guimarães, com a bela escrava e o mocinho abolicionista, de Ouro Preto, terra de outro, parente certamente, o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, “Pobre Alphonsus, pobre Alphonsus”, na verdade, e isso HD descobriu depois, Afonso Henriques da Costa Guimarães, claro, claro, até chegar ao regionalista pós-moderno místico-linguístico, João Guimarães Rosa, natural de Cordisburgo, célebre autor de “Grande Sertão:Veredas”, onde Riobaldo narra suas aventuras enquanto o diabo rodopia num redemoinho.

Quando não inventavam de comentar seu parentesco com Gonçalves Dias (pois de Bartolomeu Dias ninguém mais se lembra...), com aquela de “Meu canto de morte Guerreiros ouvi : Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; ”, a esquecerem que o poeta romântico era do Maranhão, e se parentesco havia, advinha de terras portuguesas. Aliás, as terras de um Almeida Garrett, aquele fã de Camões, como bom português que é, ou era, pois morrera em meados do século 19, celebrizado por sua obra “Viagens na Minha Terra”, parodiando alguém que viajava ao redor do próprio quarto, certamente um francês, possivelmente um antecessor de Proust, que gasta trinta páginas para descrever-se ao despertar.

- “És filho de uma pisadela e de um beliscão

- “ A ciência, se fôssemos eternos, inventaria a morte

Eram assim que surgiam as citações. Do nada. Transitando entre leituras, compartilhando versos e impressões, alguém lembrava então do Manual Antônio de Almeida, aquele na transição romantismo para realismo, ou do poeta Guilherme de Almeida, ali entre os parnasianos tardios e os modernistas, “entre os passadistas e os andradistas”, ironizava uma professora, do alto de sua cátedra, fazendo imprimir sonetos para o próprio deleite, enquanto HD se esforçava no Português Instrumental, preocupadíssimo com futuras monografias.

E de onde, esse autor de “Memórias de um Sargento de Milícias”, um carioca de escrita lusa falando de lusitanos com fala brasileira? Escrevia realismo popular anti-romântico? Ou nada mais pretendia do que um humor caricatural? Está certo que a fala popular ali está, bem antes que tivéssemos um Graciliano ou um Guimarães Rosa, mas pretende retratar ou ironizar? Ou ambos os propósitos?

E quanto ao poeta, dos interiores paulistas, com seu texto “Esta vida”, pouco se referiam, talvez por real despreparo, vergonhosa ignorância, como se Guilherme de Almeida não passasse de um vulto à sombra dos Andrades, ou os indecisos da Semana de 22, que sorriam aos “sapos tanoeiros” mas ainda não aderidos ao “pau-brasil”, tremendo antes de usar um “me dê um cigarro”, que coisa mais bárbara! Mas o poeta não se preocupa em violentar a língua, mas em amá-la e fertiliza-la, em orgasmos líricos, eis o que HD se permitia pensar, ousando odes para as pernas das futuras calouras, ninfas ansiosas nas ondas turbulentas dos vestibulares, e quem disse que sobrava tempo para folhear antologias poéticas? Nem Guilherme, nem Menotti, nem Bandeira, nem ninguém, não há tempo para a poesia.

Mas um dia haveria.

- “Não tinham sexo, nem idade, nem condição humana. Eram os retirantes. Nada mais.”

Havia lido o romance “A Bagaceira”, de José Américo de Almeida, talvez um parente, lá na distante Paraíba, com o seu nome assinalando a interface entre realismo e modernismo, com o desaguar de uma vertente nova, a saber, o Regionalismo. Onde os sertões aparecem como cenário, como já se sentia desde o Euclides da Cunha, com seu soberbo Antonio Conselheiro, “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”, mas também folheara um místico “Canaã”, lírico e germanófilo, de Graça Aranha, aquele que pulara para o lado dos modernistas, Mas o que havia na Bagaceira do tal Almeida? Ora, uma faísca de ignição! Estava ali o beabá que engendraria o vocabulário de uma Rachel, em “O Quinze”, onde retirantes e paisagens se confundem, onde homens se arrastam e animais se humanizam. E o fluxo até o mar de um grande sertão, aqueles das veredas de um tal Riobaldo, atravessado por um médico sobre uma mula, a colher anotações sobre o dito e não-escrito, até descobrir que a literatura estava no desfazer-se da literatura, tal percebera um certo Paulo Honorário (o protagonista de “São Bernardo”, outro romance do Graciliano) que escreve como se fala, após dispensar os amigos com suas literatices neo-camonianas e jargões eclesiásticos, a imaginarem que vivemos ainda o século do Padre Vieira, com seus floreados e rebusques barrocos, que Deus o tenha! Mas talvez o outro Guimarães, o seu outro parente, O Rosa, tivesse mesmo uma certa intenção oculta, a mesma do Conselheiro, a de inundar o sertão, não de águas, mas de palavras, para fazer frutificar a fala na terra de vazios.

Até que alguma engraçadinha se aproximava, geralmente com um livro debaixo do braço, e vez ou outra, usando óculos.

- Isto não é um nome! É uma aula de literatura!




Outra segunda-feira, desta vez uma daquelas acizentadas, de céu desabado e pesando sobre os ombros, e encontramos HD em sua peregrinação por agências de recursos humanos, onde estão, como sempre estiveram, e sempre estarão, os conhecidos representantes da academicamente denominada “reserva de mão-de-obra”.

A procura de empregos, ou vagas para estágios, os jovens se acotovelam diante de uma dezena de folhas tamanho ofício onde estão listadas as vagas,os cargos e as exigências, tudo o que é possível ao mercado de trabalho ofertar aos que se perdem aos que se perdem em andanças vãs de agência em agência, o dia todo, na distribuição generosa e (onerosa) de currículos, cuidadosamente envelopados, ao custo de cinqüenta centavos a unidade. Imaginem o gasto mensal de um candidatos às vagas disponíveis.

E isto quando não compram uma listagem de agências da região, que aquele gentil e simpático jovem vende a porta de uma ou outra agência, após cuidadosa sondagem das localizações e vantagens de cada uma.

- Podem confiar. Fui em cada uma. Afinal, eu também estou à procura de emprego.

Mas HD, após se assegurar de sua senha, acomoda-se no corredor e abre o volume que tem em mãos, a saber, um romance alemão, escrito por Remarque, intitulado “Nada de Novo no Front”, não exatamente uma leitura otimista, para o dia e a semana que ora se inicia, mas ele não perde tempo com certos autores de auto-ajuda disfarçada em literatura de alto-nível, pelo menos no que consta vendagem e prêmios (ditos) literários.

O romance expõe o cotidiano patético de recrutas e soldados no cenário grotesco das trincheiras da Primeira Grande Guerra, onde nada encontramos daquele heroísmo tão presente em propagandas para recrutar “carne pra canhão”. E Remarque obviamente foi perseguido pela burocracia militarista prussiana, mas não é o que nos interessa agora.

- Experiência na área, rapaz? – pergunta um atendente ao jovem imediatamente ao lado de HD. Um jovem que lê um caderno do jornal do Estado, possivelmente a página de Esportes.

- Seis meses na solda, e um ano na prensa hidráulica.

- Há uma vaga para uma indústria de Contagem. Posso ver a sua carteira?

O rapaz, ao lado de HD (ali atento à leitura, mas sempre incomodado) levanta-se e passa os documentos ao atendente, que o conduz ao longo do corredor, onde desaparecem em uma das tantas portas. Um abafado som de porta a se fechar.

Mas HD está em plena trincheira entre a França e a Alemanha, e acata ordens de matar ou morrer, quando jovens recrutas são entregues ao pesadelo sob medonho ataque de infantaria e artilharia, num surreal chuva de granadas e morteiros.

Nada mais que o absurdo da guerra, ele pensa. Um exército de anseios jovens a lutarem por um palmo de chão, numa floresta escura, sem carícias ou amor de mãe, “o senhor da guerra não gosta de crianças”, diz a canção, e, aqui, todo um “exército de mão de obra” que se forma, não numa guerra que envolve armamentos, mas numa guerra social de “salve-se quem puder, quem for capaz” e dane-se os demais. Não há vagas para todos, e, no entanto, as páginas de Empregos (nos jornais) continuam lotadas. Ficamos nós aqui,mãos nos bolsos, e eles lá,os empresários, sem funcionários,ou sobrecarregando os que há trabalham.

Um “exército de mão-de-obra” que se forma, principalmente no inchaço das periferias, com todo esse excesso populacional, e lembra-se da sua palestra sobre Malthus, e no horror que seria, se tal é possível!, uma guerra em grande proporção, justamente para diminuir a população masculina desempregada, responsável por índices alarmantes de violência!, e que tal uma convocação em massa, onde os desempregados seriam os primeiros a serem convocados?

- Senha 43.

- Ei, moço, não será a sua? – diz uma senhora, agora ao seu lado.

HD confere o papelote. Um número. “43”. Levanta-se e agradece.




É fato que HD detesta embarcar em ônibus lotado, mas aquela tarde não teve opção.

Chegou na avenida Paraná quando o ônibus já acelerava. Perdera-o por meio minuto! E o lotação (o nome já diz tudo) seguia lotado. E o ponto de espera agregando multidões.

- Olha a pipoca, olha a pipoca!

Um velho manco, mal vestido em sua miséria, apregoa, exibindo um saco com pacotinhos vermelhos, com pipocas doces, manufaturadas. Chegar a essa idade, pobre e miserável pra que? Será isso um castigo? O velho ainda grita outras vezes e depois se afasta, cabisbaixo.

Meninos vendem doces e balas coloridas. Uma bela mulher ajeita o cabelo. Meio ao transito, arrastando uma carroça cheia de papelão dobrado, o vulto de um homem, moreno, suarento, olhar fixo. Um ônibus pára, ruidoso, e s pessoas se acotovelam, empurram. Acelera, mas uma senhora vem correndo. Assobios. O motorista é obrigado a esperar.

Uma estudante chega, driblando os moleques, incomodando os passantes com sua mochila, mas sem preocupar-se. Encosta-se ao mar de parada e deixa-se ficar alheia. HD finge ler os números das linhas de ônibus e observa a figura da estudante. Mas os lixeiros recolhem as sacolas os entulhos nas calçadas, isso quando não espalham sujeira na pista. Transeuntes seguem em resmungos, e outro vendedor surge.

- Oito pilhas a um real, oito pilhas a um real !

HD, já impaciente, observa as mulheres com suas sacolas de compras e as moças com pastas de plástico, a trazerem um olhar cansado. Disputam o mundo fora de seus lares, pra quê? Muitas seguem para as faculdades, após terem trabalhado o dia todo na avenida, os veículos e suas buzinas torturantes.

Um senhor grisalho, roupa modesta, bem alinhado, sapato engraxado, um sobretudo, cores equilibradas, cinza claro, cinza escurecido. O fato é que ele destoa daquela multidão, um tanto alheio, de mãos nos bolsos, ora passeando o olhar nas curvas das mulheres, ora enumerando mentalmente as janelas iluminadas dos edifícios.

Assobia uma valsinha, um tango, olha as mulheres, meio à multidão o único ser que parece ser ele mesmo. Nada de conferir se ônibus vem, ou se acotovelar meio à multidão. Aproxima-se de HD, sem notar seus olhares. Seu perfume é leve, discreto. Seu olhar traz a esperança de um prazer vindouro. Certamente pretende encontrar-se com a amante. E desliza os dedos nos cabelos (ainda fartos), alisando, alinhando. Aconchega o sobretudo ao corpo, cruza os braços. Parece apaixonado por si mesmo.

Aparece um menino à procura de latinhas de refri ou garrafas descartáveis, e para isso segue revirando o lixo ainda não recolhido. Afasta-se quando os lixeiros chegam frenéticos.

O olhar de HD volta-se para o senhor grisalho. Seu vulto meio à fumaça do cigarro. Tranqüilo, solta a fumaça com prazer, a cabeça voltada para trás. Olhos fechados, entregue a um instante de gozo.

Mas ao lado de HD outra presença. Um senhor um tanto mais idoso, com a pele tostada pelo sol, com uma certa ascendência sertaneja. O homem distribui atenção quando uma senhora e sua criança de colo aproximam-se. A mulher não é bela, e sua criança, uma menininha de uns três anos, insiste exigindo algo, talvez uma bala. Aí aparece um outro senhor, de ar cansado, com um chapéu branco, estilo country, uma certa timidez rural, justamente a oferecer balas, além de isqueiros e espelhos.

O senhor, junto a mulher com a criança, aborda o vendedor e compra um pacotinho de balas. Os olhos da menininha brilham. Ela nem sabe como agradecer. A mãe sorri, muito grata. O vendedor alega não ter troco, então o generoso vai até a mercearia da esquina a fim de trocar a nota. Retorna e paga o vendedor. Dívida saldada, os dois homens estão de prosa. Parece que ambos desceram do Vale do Jequitinhonha ou arredores. Comentam, com familiaridade, os causos da região. O senhor de chapéu louva Nossa Senhora e diz perambular por Belorizonte por uns dois anos. O outro alega estar na Capital quase a uns dez. comentam raras mudanças de prefeitos, feitos de coronéis, ameaças de secas e festivas novenas. O vendedor tira o chapéu, e m saudação e se vai na noite.

O homem não encontra um trabalho digno no campo, na produção necessária de alimentos, e vem para a cidade, sujeitar-se a uma atividade indigna. Quem então produzirá os alimentos para a Capital? Pobres seres errantes que abandonam tudo para rastejarem supérfluos num meio urbano caótico, que exclui os próprios urbanóides! Se a cidade já é estressante para quem aqui nasceu, imagine para quem chega advindo do meio rural !

Mas outras figuras já desfilam. Uma senhora evangélica (identificável por sua Bíblia) de longos cabelos enrolados, e longo vestido, olha incomodada para uma mulher em plena forma a passear atraindo os olhares masculinos. A sensual figura aconchega-se ao orelhão, mudando o foco da atenção. HD não pode deixar de admirar as curvas suaves, as coxas firmes, isso até aparecer outra, de vestido curto, ainda mais sensual, com suas pernas à mostra, sapatilhas de vermelho claro, de beleza loira, e um pouco mais esguia que aquela ao orelhão.

O homem grisalho de paletó continua a soltar suas espirais de fumo. Dois trabalhadores da construção civil aparecem – roupas gastas, bonés com mascotes de times, cada um com sua mochila, onde chocalha uma marmita, e, pedindo fogo, acendem seus cigarros com os dedos grossos, algo ressequidos.

Um convida o outro para um gole, mas o outro recusa, lembrando do turno “manhã cedinho”. Decepção do outro, o que oferece a rodada, pois possivelmente terá folga. Falam sobre a obra, “você vai vê, ele vão ter de derrubar aquela parede e fazer tudo de novo.” Uma moça de aspecto humilde, ao lado, ouve atenta a conversa. “Quem disse que estava fora de prumo? É que fizeram tudo às pressas.” A moça então sorri ao que terá folga, perguntando sobre a obra, pois o marido dela está sem emprego, e o que vai trabalhar no dia seguinte suspira, “ruim é ficar sem trabalho.” A moça concorda, ar triste, “É, pra vocês homens deve ser mesmo difícil. Ficar sem trabalhar...”, e o outro, “É muito ruim, parece até cansar mais.”

Comentam o cansaço, s poucas folgas. Mas que é pior ficar sem emprego. HD percebe, colhendo os fragmentos, que a moça é uma balconista ali daquelas lojas de departamentos, e logo chega uma colega., provavelmente seguindo para a faculdade, pois reclama do cansaço, e agora ter que “encarar uma aula chatérrima”. Os operários comentam que “o bom de estudar é ter bom trabalho, bom emprego”.

- Ah, se eu tivesse de estudado não ‘tava nessa ralando debaixo de sol, batendo massa...

A moça recém-chegada – Mas a gente estuda pega diploma e cadê o trabalho? Paga trezentos contos de faculdade e aí se não pegar três turnos nem compensa o esforço todo.

Um professor ganhando miséria - a outra moça diz – tempão estudando, noite adentro. ‘Cê veja a minha irmã, professora de Geografia, agora uns quatro anos depois de formada é que recebe o dobro do que pagava na faculdade.

Agressivamente apregoando suas mercadorias supérfluas, um vendedor interrompe o diálogo. Pilhas, espelhinhos, fitas adesivas. A mulher continua ao orelhão, a outra mastiga pipocas doces, sob o holofote dos faróis. O senhor de paletó, que HD imagina ser um poeta (por que não?), a viver naquelas muitas pensões ali por perto, indo agora encontrar-se com a amada. Homem maduro em busca de um amor calmo, ou então o abraço jovem e fogoso de uma puta. Este homem joga fora o cigarro, ao perceber que seu ônibus se aproxima, e entra tranqüilo, após esperar que todos embarquem. Ninguém a incomodá-lo, a amarrotar sua roupa alinhada. Um homem não exatamente vaidoso, mas digno.

A bela jovem com o pacote de pipocas possivelmente embarcara, e a mulher ao telefone senta-se agora ao lado dos pedreiros. Um deles, o que terá folga amanhã, ousa puxar assunto, mas ela nem atenção, e uma loira surge ao lado de HD, preocupado com a demora do coletivo, assediado por outro vendedor (outro!) oferecendo amendoim torrado em pacotinhos cônicos enfiados numa lata cheia de brasas. Ninguém lhe dá atenção. “Olha o amendoim torrado!”

Novo ônibus, outros que embarcam, outros que descem, ali só a balconista com jeito de estudante. Aproxima-se um cego, com sua varinha diante de si. Ao lado de HD, alguém indaga, “Ei, amigo, vai em qual ônibus?” O cego responde digno, “Qualquer um que siga até a Pampulha.

Surge o ônibus que serve à Universidade Federal. Ajudam o cego a subir, acomodando-o junto a roleta. HD, semelhante ao poeta grisalho, deixa-se ser o último, entre sem empurrões. Ajudaram o cego por piedades, por solidariedade ou por temor de que algo assim poderia acontecer a eles?, este pensamento ocupa sua mente enquanto o lotação (que faz jus ao nome!) segue ruidoso.

Observa o cego. Saberá toda a miséria que o rodeia? Feliz aquele que é cego num mundo de lixões? Mas e todas as estrelas e olhares que ele não pode ver? Melhor poder ver e saber quando fechar os olhos.

Muitos cochilam ao balanço do lotação. Os olhos sempre pesam, e ele, mesmo em pé, sonolento, fecha os olhos para ver melhor. Pensando.





fim do capítulo 2 da Parte 1

LdeM

sábado, 10 de abril de 2010

cap2 de Náuseas de Estudante (cont.)

...



Sintonizar o radinho na freqüência AM noite adentro é como viajar no tempo. Essas chansons de amour, esses boleros , pérolas da geração disco, clássicos de Sinatra, ou dos Beatles, ao lado de Carlos Gardel, Erasmo e Roberto, Mutantes, quando não as viagens de um Pink Floyd, ou ao lado de Emerson, Lake and Palmer, nas viagens de um Yes, “Soon oh soon the light...”

Inumeráveis outros. Por que toda essa nostalgia que o invade? Ali no quarto, ouvindo o roncar do velho estudante perseguido e torturado, enquanto o olhar segue o brilho insinuante dos faróis, que passeiam no teto, atravessando foscas vidraças.

Por que toda essa nostalgia? Pois se vivera algo dos anos setenta fora dentro de um confortável útero. Um fã da jovem guarda imerso em líquido amniótico?




Minha terra tem palmeiras”, versos de Gonçalves Dias, que HD declamava para si mesmo enquanto atravessa o Viaduto Santa Teresa, observando o Parque Municipal à sua direita, antes de transpor o Sena belorizontino, que não passa de um caudaloso esgotão confinado meio ao concreto e o asfalto.

Claro, há também os pingos de luz nos edifícios de vidro, ou os contornos, as curvas sensuais da Serra do Curral, ou os arcos de concreto sobre a linha férrea, E imaginar que o Drummond ousava escalar, e a Estação Ferroviária, à esquerda, ou o galpão da Serraria, a febril construção da cidade audaciosamente planejada.

Cinderelas passeiam pela ampla avenida Chateaubriand, diante do teatro Alterosa, na maré de sorrisos de batom e gracejos de sereias, enquanto anúncios de néon se refletem nas varandas das modestas casas de traços tradicionais, Mestres-de-obra construíam suas casas ao longo dos anos vinte, sendo então abordado por criaturas sensuais com olhares de promessas, estas mocinhas de unhas esmaltadas, Por gentileza, eu gostaria de, mas as respostas pouco gentis afugentam sua audácia,E tão acima de minhas posses.

No entanto, é preciso dizer, naquele coração jovem não há lugar para mágoas, e HD desceu rumo a Contorno, aquela avenida que abraça a cidade, e se perdeu em ruas estreitas, com antigos calçamentos, com os muros cobertos de trepadeiras, e singelos muros baixos exibindo alpendres ao estilo lusitano. Casas erguidas à seis, sete décadas, feridas pelas asperidades do tempo.

Admirando a passagem do tempo (numa penumbra de túnel do tempo) nosso HD fazia sua tour pelos bairros tradicionais, onde os botecos nas esquinas são ponto de encontro para os talentos, onde os amigos de velha data, com seus semblantes grisalhos, podem trocar impressão sobre o mesmíssimo túnel do tempo.

- O senhor saberia...

Não, o senhor não sabia. O Clube da Esquina existia em cada esquina. Era inútil procurar uma esquina específica.

Passou diante de varandas tímidas, e sobrados de reforma recente, daquele casario de porta em plena calçada, com botecos vazios ou lojas de doces ou produtos da roça, quando não uma reformadora de sofás.

Grandes casas com jardins sossegados, indefesas sem muros ou grades, deslocados no mundo da violência, expondo seus corpos num tempo congelado, até saudosas dos trilhos dos bondes, serpenteando nos limites dos subúrbios. Saudosos subúrbios.

Um som ritmado e pesado de percussão alcançou-o numa esquina. Viu o casarão, amplo jardim, botões rubros além das grades com pontas em volteios de flor de lis, e suas luzes apagadas, exceto em uma janela.

No bairro, onde se respira música (seja a popular ou a agressiva), alguém ensaiava um solo de bateria. Numa marcação pesada de pausada, em som sombrio e denso. Um ritmo semelhante aos remos em ação numa galé romana, uma melodia ainda sob a mão severa a espancar a pele dos tambores.

Na placa, Rua Mármore, um reflexo de farol. Duas estudantes cruzaram seu caminho. Percebe os uniformes, mas não o símbolo do colégio. Logo, surgindo de uma esquina, dois sujeitos de roupas escuras. Um carregando um estojo com formato de violão. Os vultos seguiam a sua frente, na outra calçada. As estudantes, a sua frente. Uma porta iluminada de um bar. O olhar adentra e encontra um relógio de parede a marcar sete horas.

As garotas desceram uma rua, e HD saiu na praça. Os bares e a discoteca. A imponência pálida da matriz. O colégio militar. Outros jovens vestidos de luto, ou exibindo cabelos coloridos, transitam entre melodias díspares, enquanto um grupo, ao redor de um mulato com violão, relembram sambas populares, do outro lado da praça, um carro equipado com um som escandaloso a exclamar impropérios contra a triste existência.

Retornando, encontra os mesmos sujeitos soturnos de antes, um deles a parecer-lhe familiar. Um ar melancólico de poeta mal-do-século. E HD não pode deixar de notar que eles adentram o sinistro sobrado de onde fluía o peso da bateria, numa escala de golpes regulares. Alguém se aquecendo para um espancamento.

Viu-se na contorno e desceu rumo ao Santa Efigênia, cruzando novamente sobre o ribeirão fétido. Está na avenida Brasil, no sentido Praça da Liberdade. O tilintar dos copos numa churrascaria, um par de pernas a descer de um carro importado, ou a risada provocante de uma jovem enlaçada pelo ardente companheiro, ou a promessa cantante nos anúncios com olhares e sorrisos.

Diante de lojas de vinhos, padarias com infindas delícias, lojas de modas com suas vitrines, aromas sedutores de cafés e pizzarias. Guardas, vigias e manobristas. Policiais fardados. Arapongas em disfarces. De súbito, um mendigo enrolado sob uma marquise, ou um catador de papel e sua carroça grotesca.

- A vida em suas várias formas.

Ouve a própria voz destacar-se acima de buzinas e goles de chope. Nas portas dos hotéis, porteiros sisudos e elegantes recepcionam as madames saídas de automóveis faustosos, amparadas por gentis motoristas. Nas calçadas se entulham mesas e cadeiras, e amigos e abraços. Algum dia, com um emprego e uma carreira, eu terei amigos que me encontrem sob essas árvores e me convidem para uma cerveja? E realmente uma voz sobressai, a exigir um chope. Trabalharei para que, tendo um carro, possa dar generosas gorjetas aos manobristas?

Na praça Tiradentes há tão-somente uma estátua. O vulto do enforcado. Havia navalha na prisão? Ele é o nosso Cristo republicano? Observa a estátua e murmura, “Se você voltasse, Alferes, eles te enforcariam de novo” meio ao rumor da avenida Afonso Pena, que subia do centrão rumo a serra, registra mentalmente a solidão dos bancos, a ausência dosa amantes e seus beijos, os saudosos namorados agora amedrontados.

A vida noturna continuava do outro lado. Mais diversão, com empresários deixando seus escritórios, burocratas evadindo-se das repartições, balconistas emergindo das lojas, garotas de programa assediando os bares. Cada um na sua vidinha, e abaixo os arrivistas?

Novos pratos nos restaurantes, novos sabores nas pizzarias, novas posições nos motéis, novos escândalos nos inferninhos. Uma infante noite dadivosa, para os amantes do prazer e do desperdício, tanto par os manobristas quanto para os ricaços, tanto para os garçons como para seu clientes, tanto para as damas da noite quanto para meus parceiros. A burguesia já não foi, tempos outrora, uma arrivista?

Mais bares, restaurantes, pizzarias, motéis, inferninhos, boates, na regurgitação da vida noturna, na efervescência da Savassi, promessas de prazer e luxúria até a náusea.

O edifício ondulado de Niemeyer meio à silhueta das palmeiras da praça. Algum evento atrai curiosos passantes até o coreto. O palácio impera após outra reforma. Sentinelas atentas em suas poses de autoridade meio às estátuas gregas do jardim.

HD preferiu unir-se sedentários em seus coopers vespertinos, entre rosas vermelhas e chafarizes, entre juras de amor e bocejos de tédio.




Em suas viagens literárias sobre as Grandes Navegações, HD acabou descobrindo Fernando Pessoa. “navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: ‘ navegar é preciso; viver não é preciso.’ ”

Obviamente já lera versos do lusitano. Isso no colégio. Mas era parte do dever escolar, não descoberta. Já folheara Camões, “As armas e os barões assinalados, Que da Ocidental praia Lusitana...”, já ler a carta do Caminha, “e neste dia, a hora de véspera, houvemos vista de terra, isto é, primeiramente d’um grande monte...”, fora os famosos Robinson Crusoé, Ilha do Tesouro e Capitão Háteras.

Em “Mensagem”, único volume de poemas de Pessoa, impresso em vida, HD encontrara, na Segunda Parte, intitulada “Mar Portuguez”, uma quadra, “V. Epitáfio de Bartolomeu Dias”, “Jaz aqui, na pequena praia extrema, O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro, O Mar é o mesmo: já ninguém o tema! Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.”, e rodeado de outros ilustres, “VIII. Fernão de Magalhães”, “IX. Ascensão de Vasco da Gama” e “X.Mar Portuguez”, “Ó Mar Salgado...”, e foi descobrir que aquele outro “Dias” fora um navegador português, nascido não se sabe quando, e que zarpou do Tejo em 1487 e não conseguiu dobrar o cabo na extremidade sul da África, chamado, por ele, de “O Cabo das Tormentas”, ou “Tormentório”, ou ainda, “Tormentoso”. Isso em 1488, pois no ano seguinte, o famoso Vasco da Gama passa o local e, vencedor, rebatiza-o “Cabo da Boa Esperança”, o “Good Hope” atual. Sabe-se que Bartolomeu Dias, quiçá ancestral ilustre, morreu em 29 de maio de 1500, na frota de Cabral, o Pedro Álvares Cabral que mês antes, dizem, descobriu a “Terra de Santa Cruz”, o atual “Brasil”, pois no mesmo Cabo a Esperança não foi a última a morrer, e o encontramos, o ancestral Dias, no Canto V de Os Lusíadas, do grande Camões, quando trata do medonho gigante Adamastor, e o “Cabo da Volta”, no sul da África do Sul, hoje, chama-se “Diaz Point”.

Mas quando ele leu, “Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor,”, finalmente entendeu o que seria espírito de aventura. O jogar-se ao mar numa casca de noz. Difícil para ele entender, afinal era um montanhês, e o único mar que o cercava era o mar de morros.



Mas a onda que realmente arrastava o seu coração era aquela dos estudantes pelas ruas de Paris. Até porque era o assunto do momento. E Fred (dito Mutantes) não perdia a oportunidade de mencionar casos da época, o Maio de 68 que ainda não terminara.

- Mas as passeatas no Rio não eram menores. – após comentários sobre as manifestações na Espanha, Bélgica, Itália e Estados Unidos – E as forças de segurança apresentavam toda a sua delicadeza. Eu não estava lá, mas conheci duas estudantes de lá.

Juventude fremente. Sem ideologias? Só Hormônios? Intelectuais cúmplices ou vítimas?, HD pensava, rabiscando folhas e folhas. Mas Fred não concedia pausas para questões.

- Você acha que todo mundo lia Marcuse? Não, cada louco com sua loucura.muito desencontro. Ou então conjugavam existencialismo e o culto a Mão. Um casal “flower power” distribuindo panfletos para o Partidão. Coisas assim. Fora os filhinhos-de-papai, tudo reacionário-cuzão, que delatavam colegas declarados subversivos.

Mas a classe média era simpatizante. E intelectuais apoiavam os estudantes. Gente de militância é que se convertia à reação e delatava. Fora que em revoltas em líderes nem.

- Aí a Bete, a que eu comia na época, ficava falando em drogas e tal, mas era comum. Era aceitável. Igual fumar estes caretas hoje em dia, “um hollywood para o meu sucesso”, entende, cara?

Mas HD entendia, e enchia cadernos de perguntas irrespondíveis. E que miséria! Ele não estava lá! Alegria, alegria, ser surrado!



continua...

LdeM

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Náuseas de Estudante - Cap2

.
..
...

Assim como aparecera, Aldo foi embora. Outras estradas aguardavam o andarilho. HD mudou de quarto, não por temer saudades do contador de causos, mas para alojar-se no quarto do primeiro andar, que era mais barato. Aquele ocupado por um senhor de idade, que todos consideravam estranho. “Dizem que é um louco.”

HD não foi formalmente apresentado a Fred Mutantes (como se auto-cognominava), mas o conheceu, alta madrugada, quando o velho o acordou, pedindo uma grana para pagar o táxi.




- Me dá um cigarro.

E HD ficava pensando no poema “Pronominais” de Oswaldo de Andrade, “Dê-me um cigarro / diz a gramática”, mas o povão diz mesmo é “Deixa disso camarada / Me dá um cigarro.” Toda vez que Fred, dito Mutantes, aparecia em solicitações de fumo. HD, aliás nem fumava.

E ficava (Fred, o dito Mutantes) narrando suas memórias, abrindo o seu “baú de ossos”.

- Cada geração com sua ditadura. Eu vivi sob a ditadura militar, meu pai sob o Estado varguista, e meu avô sob o marechal de ferro, aquele, o Floriano.

Isso altas horas. Chegava bêbado, acordava bêbado, acordava HD e ficava puxando prosa. Com aquele cheiro de colônia barata, ar de expulso da zona boêmia, saudoso de todas as putas, a compartilhar (sem que ninguém pedisse) recortes de jornal com denuncias de violência policial. Até porque já apanhara muito de polícia. Desde a época de política estudantil.

Certa noite, o velho chega bêbado – alta madrugada – e acorda o HD (e por pouco a pensão inteira) para solicitar, gentilmente, uma grana para pagar o táxi, que o aguarda ali na portaria.

HD, meio sonâmbulo, empresta uma grana, e Fred discursa fremente sobre o passado, “Pô, bicho, 68? Eu lembro! Agarrava uma mina na faculdade! Ali na fafich, entende? Sob a pancadaria da polícia!”

Mas a desgraça é que o tal Fred (dito, Mutantes), ronca o suficiente para reverberar em todo o Érebo (Infernum?) e HD é obrigado a encher os ouvidos de algodão. Às vezes,o velho se dispõe (não apenas quando ébrio) a cantarolar canções de Roberto e Erasmo, ou Secos e Molhados, “dizem que sou louco, mas louco é quem me diz...” em alta voz, para desespero do nosso amigo. No entanto, é hábito que HD logo copia (sem entender o porquê) – para o desespero dos pensionistas!

Não somente histórias deixava o velho Fred. Trazia uma ancestral mochila com aqueles amados vinis, coisa rara. Jimi Hendrix, Santana, Doors, Creedence, Led Zeppelin, Caetano e Gil, Jovem Guarda, e, claro, Os Mutantes.

- Pô, cara, eu lembro do meu avô! Se ele estivesse por aí, vivinho, teria seus cento e tanto. Eu tinha uns treze quando ele morreu. Pó, logo no alvorecer dos loucos “sixties” !

Claro que Fred (Frederico Alvim, HD descobriu depois) não era tão on the road como o jovem Aldo se mostrara. Fred provinha de família classe média, até começara a estudar Antropologia, mas nunca concluíra, devido a tantas prisões. Nem comunista, nem anarquista, dizia-se intervencionista. Entrava num bar começava a discursar (ninguém lembra exatamente de qual assunto se tratava), atraindo as forças repressivas que consideravam o ato um ultraje, uma afronta, coisa de desprezíveis subversivos. (Há quem defenda que numa dessas vezes, Fred apenas defendia, com argumentos aristotélicos, o uso da mini-saia pelas belas estudantes.)

É claro que usava algumas frases (hoje, divulgadíssimas), tipo, “o último padre será enforcado com as tripas do último capitalista.” E convivia com utopistas e milenaristas, que pregavam novos valores, convidando a juventude a sepultar o passado, rasgar os quadros, destruir os museus, jogar no lixo capitalismo e comunismo.
- Era possível ser de esquerda e ainda inimigo do comunismo?

Mas Fred não compreendia essas nuances, nunca pensara muito sobre isso, sempre mais dionisíaco do que erudito apolíneo. Política havia. Mas era coisa séria? Talvez tudo não tenha passado de uma revolta da libido, não contra a Mais-Valia. Libertação sexual sim, sem neuras (que agora as mulheres voltaram com uma neura que é de espantar, ele confessava) libertação sexual, sim, mesmo que hoje degenerada em libertinagem. “falaram em liberdade, caíram na sacanagem”

(Mulheres, e daquelas saudosistas, ele encontrara no último show da banda progressiva YES, em Belo. Um amigo tirava fotos – algumas patéticas. Mas valera a intenção, mesmo que impossível retornar aos anos setenta.)

- Pô, mas o meu avô morreu de quê? Pneumonia? Não sei. Ainda assim viveu mais do que meu pai, que morreu na época das Diretas-Já.

Mas lembrava ainda da morte do estudante Edson, no Rio de Janeiro, a repressão da linha-dura, a morte trágica de Kubitschek, o JK, a invasão da Universidade de Brasília, o congresso clandestino da UNE,o terror do AI-5.

Entre a Bossa Nova e o Tropicalismo, Fred fazia política e quase fez um filho, mas sua companheira sofrera um aborto (ele dizia, “nervoso”) quando de sua primeira prisão. Uma semana depois do citado Ato Institucional. Fred, que até o momento, nada lera de Marx ou Marcuse, pôde aprender sobre tais autores com outros estudantes presos.

Jogavam baralho, lembravam de Graciliano no Cárcere varguista, e discutiam temas subversivos, a saber, Marcuse e a denúncia da repressão dos instintos, Reich e a liberação da libido, Laing e a crítica aos padrões de normalidade, Foucault contra a manipulação da loucura com finalidades políticas, o irracionalismo de Antonin Artaud, a expansão da mente através dos psicodélicos, em Aldous Huxley, e também em Leary e Carlos Castañeda, além de trechos de Salinger, ou poemas e canções de Bob Dylan, e narrativas de viagens de Kerouac.

Não precisa dizer que HD derretia-se de inveja, “Que época memorável, que ânsia de mudança, que juventude iluminada!”, pois quando olhava ao redor somente encontrava uma multidão contemplando o próprio umbigo, esperando o encontro amoroso do fim de semana ou os jogos da Copa do Mundo.



Idéias e idéias. HD e suas idéias. O desenvolvimento infantil pessoal seguiria o desenvolvimento histórico da civilização, no caso, a Ocidental?

Sentado em sua cama, encarando um calendário com as ruínas do Coliseum, de Roma, HD anotava febrilmente. “ Tenho febre e escrevo...” Aos oito anos, ele brincava de índio, Pele Vermelha, Cara pálida, em seu Forte Apache, mas aos nove, ousava se lembrar de guerreiros bárbaros, tipo Conan, ou o mitológico Hércules., ou imaginava-se o gladiador nas arenas, e aos dez anos já brincava de espadachim, ao estilo “capa e espada”, sonhando ser o Zorro, mesmo sem ler os quadrinhos, e, muito menos, Os Três Mosqueteiros.

Ainda encarando as ruínas do Coliseum, ele anotava, sucintamente, que aos quatorze anos vivia em brincadeiras de cavalgada, carruagem, ou locomotivas (chegava a ficar imitando o apito das marias-fumaças!), mas aos doze, sem pausas reflexivas, brincava com miniaturas de automóveis, ônibus, tratores, criando verdadeiras cidades de papelão e isopor, com o requinte de túneis, viadutos, represas, postes e fios suspensos. Contudo, tempos depois, aos quinze, colecionava miniaturas de naves espaciais, um Columbia, um Challenger, um Discovery, ou naves materializadas de filmes de science-fiction, ao estilo Star Wars, Star Trek, Odisséia no Espaço.

Depois vieram os jogos eletrônicos de batalhas espaciais, com temas futurísticos, colônias lunares, impérios galácticos. Excessos de Isaac Asimov ou Arthur Clarke...

Mas uma lacuna ele identificara: por que nunca brincara de navegador, de pirata, de Jolly Roger? Com lenço na cabeça e venda negra nos olhos? Por que nunca colecionara navios, naus capitânias?

Mas o mais estranho: ele descendia, por lado materno, de imigrantes lusitanos, e nada se interessara quanto às navegações? Afinal, “navegar é preciso. Viver não é preciso.”

Anotou: Pesquisar urgentemente sobre as navegações.



Adorava fazer listas. Lia romances e listava as cidades. Potencialmente literárias. Dostoiévski apresentava São Petersburgo, Proust descrevia os salões parisienses, Maiakóvski era o guia turístico em Moscou, perambulava pela Londres de Wilde e Virginia Woolf, ou na Dublin de James Joyce. Gostava da São Paulo de Mário de Andrade e da Belo Horizonte de Pedro Nava. Conhecia Nova York guiado por Salinger ou Bellow, sonhava na Praga de Kundera, em insustentável leveza.



Certa tarde foi visitar o professor de Química. Ex-professor, diga-se. Agora cientista.

O professor um tanto surpreso com a notícia de HD. Dedicar-se às Ciências Humanas? Ele, um excelente aluno em Biológicas, Física, e igualmente Química? Não vivia ajudando aquela garota, linda, mas digamos, pouco estudiosa, como é mesmo o nome dela?

Mas o professor se esquecera que Darío vivia traficando informações sobre eventos políticos e fatos históricos, e que até haviam feito uma visita à professora de História?

O químico ofereceu um cafezinho e foi à cozinha. HD permitiu-se observar o cenário. Ali realmente um grau notável de desordem e entropia, com volumes mofados em pilhas até o teto, a escrivaninha tomada por colunas de papéis, anotações de fórmulas, um pacote de bolachas, manuscritos sobre Química Orgânica, obras clássicas de Linus Pauling, tomos enciclopédicos de Física Quântica, além de uma prateleira cheia de tubos de ensaio.

Ambos em conversa sobre o chamado progresso científico, as verbas para as pesquisas militares, a história da ciência, a utopia cientificista de Francis Bacon em “Nova Atlântida”, o sábio Newton entre a Alquimia e a Ciência, ou Galileu subindo no ombro dos gigantes, a ciência e a sociedade nos ensaios de Bertrand Russell, isso enquanto o professor vai fazendo um café.

Einstein no Brasil? Sim, sim. A visita do físico ao Brasil. Até experimentou uma cachaça.(Bebida que, aliás, o professor não dispensava, bebericando, acompanhado pelos alunos mais velhos, no boteco em frente ao colégio, ao som de bandas inglesas.)

Einstein: genialidade na pobreza? Berna, Suíça, 1905, Kramgasse, 49. Casa simples, de uma empregado de tempo integral. Um técnico de terceira classe, num escritório de patentes. Einstein, então com vinte e seis anos, embala um berço,no qual está o seu primeiro filho. Um livro aberto no colo.

Os cinco artigos, na revista Annalen Der Physik, número dezessete, de 1905, hoje artigo para colecionador, sobre Relatividade, a Relação entre Massa e Energia), o Efeito Fotoelétrico (luz formada por corpúsculos), que levou ao Nobel de Física de 1921, a Natureza do Movimento Browniano (a agitação das moléculas) e a tese de Doutorado, as Dimensões moleculares (em artigo que foi muito citado).

- Como um físico isolado da comunidade científica, e trabalhando em condições precárias, pôde produzir tanto?



continua...


LdeM

domingo, 28 de março de 2010

Náuseas de Estudante - cap. 2

.
..
...

Novamente encontramos HD numa agência. É bem recebido, num ambiente agradável, tudo organizado, está bem vestido (gastou as últimas economias com roupas), é atendido por uma recepcionista muito prestativa e atraente, antes a conversar com um homem jovem, de porte elegante,possivelmente um colega ou superior, quando surge a psicóloga, mulher jovem e sorridente, a convocar, “Por favor, Hector Dias”.

Segue pelo corredor, os olhos postos na ficha de inscrição, e suas exigências de dados que nem a Gestapo devia pedir. Fora a parte inferior da ficha, QUE O CANDIDATO NÃO DEVE PREENCHER, área de anotações para o psicólogo, se o Candidato se veste bem, se tem boa aparência, se tem boa expressão verbal, se é extrovertido, se mostra sociabilidade, ou seja, dispositivos básicos para ENQUADRAR o Candidato, selecioná-lo!

Teorias da conspiração à parte, a entrevista é uma atuação. Nada de dialeto coloquial, atenção com a postura, nada de críticas. Se você olhar para os lados, consideram desatenção, e se encarar a psicóloga, consideram tentativa de intimidação, ou se ficar observando os papéis sobre a mesa, consideram sinal de indiscrição e curiosidade mórbida. Ou seja, de todo jeito, eles vão te rotular.

HD diante da psicóloga. Muito agradável, de uma beleza modesta, que deixa HD atraído. Mas sejamos profissionais. Ele sustenta o olhar, não se interessa pelo papéis na mesa,não comenta os quadros na parede (apesar de perceber uma cópia de Matisse), nem a paisagem pela janela (isso lembra letra de música), mas mergulha nos olhos verdes-oceânicos da quase morena. Tudo vai bem, HD não fuma, não masca chiclete, não anda mal vestido, não tem “nome sujo”, nem ficha na polícia, no entanto, ó céus !, não tem experiência REGISTRADA.

É verdade que ele trabalhou, por quase um ano, num balcão de papelaria, mas, ó mon dieu!, não teve a Carteira assinada.
Sua ficha será arquivada para futuros cargos – que não exigem experiência – e ele pontua sonoros Boas Tardes para todos, se despedindo dos olhos da psicóloga, dos dedos sensuais da recepcionista, ainda pensando se a psicóloga fará um X no círculo de extrovertido ou introvertido.

Isso nunca o incomodara antes! Para que servem os introvertidos? Para criarem artes? Para os extrovertidos? Doentes fazem obras para os saudáveis? É claro que introvertidos lêem, ouvem, introvertidos – mas é para os extrovertidos que eles escrevem poemas, compõem músicas!

E nisso passa outra dama, acima de suas modestas posses, uma jovem a sair de um consultório dentário.

HD se analisa (até com certa freqüência, convenhamos) se está triste (logo introvertido) por estar frustrado. Nem ousa encarar a mulher que vem em sentido contrário. Deseja-las para quê? Mas sabe que se houvesse conseguido o emprego, seria agora OUTRO sujeito. Estaria assobiando canções da moda, estaria pensando em compras futuras, estaria ali abordando aquela loira de sedutores óculos escuros.




Folheando o jornal. “Evite o Currículo desfocado”, percebe na seção de empregos. Não querendo chances, os candidatos indicam o interesse em várias áreas. Tal tática pode ser interpretada como falta de rumo, dizem os especialistas (pois sempre há um especialista! O que seria de nós sem os especialistas?)

Ora, vejam só! Quando você determina uma certa área de interesse, você é, para eles , seus selecionadores, um limitado, por pouco versátil.

E quando você indica uma possibilidade de atuar em cargos diversos,não é que você é versátil, pois você é, para eles, um “desorientado”, por aí sem rumos, à deriva.

Ora! Essa de querer agradar aos empregadores, para ser selecionado, é igual a querer agradar gregos e troianos, cruzeirenses e atleticanos!



Finalmente, HD entra num treinamento. Venda de Purificadores de Água. Consultor Comercial. Deve demonstrar os benefícios do produto às excelentíssimas donas-de-casa Lembrar-se-á sempre que encontra-se numa Empresa que valoriza seu Capital Humano (Capital? E humano?) disponibilizando toda um infra-estrutura e investindo no funcionário.

Durante os treinamentos, a chefe da equipe de vendas, impreterivelmente, há de tocar,no sofisticado CD-player, “We are the Champions”, da banda inglesa Queen (que HD até aprecia, mas em tais condições...) , julgando assim levantar o moral da (produtiva!) equipe.

- Somos vencedores !

Tudo isso para venderem purificadores de água, não morrerem de fome, e darem lucro para um firma que pouco interessa.

- Pois a água mata!

“Patético.”



HD e o uso da gravata. Ainda vendendo (ou tentando vender) os tais purificadores de água. No sábado (pois trabalha aos sábados até quinze horas) degusta um lanche no Mercado Central, e entra no lavabo, para colocar a gravata, rosa estampada, e ao sair, trafegando pelos corredores impregnados de cheiros, os mais diversos, vai notando os olhares, os mais deslocados. Como se ele estivesse com um risível nariz de palhaço!

E atravessa a névoa de almíscar, perfumes, balidos, gracejos, e cai na claridade da rua Curitiba, e assim manhã dentro até a Avenida Bias Fortes, endereço do escritório.

A Crise da água. Eis o tópico da palestra de hoje. Água poluída. Água desperdiçada. Sistema de tratamento da água. Preservação dos mananciais. Falta de chuva e a pequena vazão na hidrelétricas.

O Diretor está igualmente irônico, gracejando, e sem gravata. O que pode HD concluir? Descobre simplesmente que não se costuma usar gravata aos sábados!


HD e o uso da gravata. Parte Dois.

Pois bem, o contraponto. Dias depois, HD esquece a gravata na pensão e aparece no escritório sem seu ar sério.

Alguns notam o deslize do colega. Mas nada dizem. Esperam a desaprovação verbal da Chefe.
O que, de fato, ocorre.

Ele não fora dardejado antes por permanecer em sua sala, ocupado com o telemarketing, mas quando chegou à sala de reuniões, sob os acordes de “Nós Somos os Campões”, a chefe desceu nele o olhar e não perdoou.

- Onde o senhor pensa que está? Num clube? Numa festinha de amigos? Esse lugar é um lugar sério, de trabalho sério. E eu quero seriedade!

Silêncio. HD balbucia desculpas. Mas apenas se patenteia sua submissão final. A generala mantém o olhar faiscante.

HD deixa o escritório, cabisbaixo. Sem despedidas. E jamais volta.



Deitado na praça. Olhando o céu ao crepúsculo. Aí sente uma latinha de cerveja cair sobre o peito. O que é isso? Depois umas pedrinhas e outra latinha, agora de refrigerante. Senta-se no banco,olha ao redor. À distância de um poste,uns moleques, e até uma garotinha, correm aos risos. “Ele acordou! Corre, Rita!” estão se divertindo com o pobre desconhecido.

- Ainda bem que eu não estava em Brasília, senão, jogavam era um balde de álcool e um fósforo!

Aldo contava a sua história, e HD quedava-se todo penseroso em como tememos a exclusão, a ponto de humilharmos e odiarmos os que nos parecem mendigos.

- Já parou pra pensar que mendigo não é gente?

- É, meu bom. Talvez sejam anjos. Disfarçados.


continua...

LdeM

sábado, 20 de março de 2010

Capítulo 2 de NÁUSEAS DE ESTUDANTE


Capítulo 2


Nos sábados à tarde, após dormir toda a manhã, HD cultiva o hábito de estudar,ouvindo música. Se não era Mozart, eram outras psicodelias. “Shine on you crazy diamond”, eis o que ele ouvia, quando ecoam vozes próximas. A senhoria subindo, ruidosamente, as escadas, a trocar argumentos com algum possível novo inquilino.

- Sim, essa época das provas. Muitos estudantes. (uma pausa) Alguns já reservados. Mas este quarto só...

E a porta do quarto se abre. A mão da senhoria na maçaneta e uma face sorridente de rapaz, o que se lança quarto adentro.

HD, que tentava se com concentrar, é obrigado a ser cortês com os intrusos (ela nem sequer bateu na porta!) e abaixar o volume do som. O recém-chegado passeava olhares pelo quarto. HD também observando. Via-se que o rapaz, ao menos era sociável. De estilo alternativo. Roupa simples, quase um hippie, com sua sacola de lã, sandálias, cabelo curto mas despenteado, falando sorridente, “Já gostei aqui do meu colega”, e sorri (sempre sorridente!) como se fossem velhos amigos.

Em seguida, desceu seguindo a senhoria, para acertar pagamento, conseguir uma almofada entre outros detalhes.


Além de Pink Floyd, Aldo (como prontamente se apresentou) era fascinado com Sagrado Coração, e Secos e Molhados. Carregava na mochila umas fitas-cassete com gravações de Led Zeppelin e The Doors. Gostava também de viola caipira. Desconhecia música clássica.

Não somente gostos musicais uniam os companheiros de quarto. Aldo viajara muito e HD adorava os relatos das andanças.



Outro interessante dado biográfico do recém-chegado: ele viera de Itabira. “Noventa por cento de ferro nas calçadas. Oitenta por cento de ferro nas almas.”

Na manhã seguinte, HD desceu para lavar roupa. Alguém sugeriu uma contribuição coletiva para um tropeiro ( que esperava-se também coletivo). Pensionistas diante de um TV recheada de banalidades. Resolvem ratear as despesas para fazerem uma “vaca atolada” (prato composto por costeleta e mandioca), e HD solta umas moedas. Aldo, já enturmado, sustenta conversas paralelas. O Bug do Milênio, isso e aquilo. O coronel do massacre do Carandiru, julgado? Condenado?

O almoço até que foi de acordo. O filme na TV é que era péssimo.

O quarto de HD não é imundo e abafado, como aquele de Raskólnikov, muito menos frio, como aquele de Charles Bovary, e passa longe daquela espelunca do protagonista-narrador de “Fome”. Duas camas, uma estante, um guarda-roupa, uma mesa. O banheiro é no fim do corredor, e coletivo. De manhã é aquela fila. Um monte de marmanjos alegando pressa e prioridades para passar na frente. É a lei do mais forte.

Aquela manhã, um tanto cinzenta, HD acordou cedo, pois pretendia procurar emprego. Compra um jornal numa banca da esquina da Bias Fortes e vai ler ali na praça Raul Soares, de costas para o famoso Edifício JK, e mesmerizado diante dos arbustos em forma de esferas. Glóbulos verdes. Também mendigos compõem a paisagem urbana. A fonte da praça está morta, somente resta uma água parada, fétida. Os jardins não recebem muitos cuidados, e um odor de urina é onipresente.

Oferta de empregos. Vagas sem exigências de experiência. HD anota os endereços e telefones, marca pontos num mapa (que comprara recentemente), traça roteiros mentalmente. Aí chega um cidadão, com um saco de aniagem nas costas, num chocalhar de latas e garrafas descartáveis. Sob a sombra da árvore à direita, começa a amassar – uma por uma – com a bota. A estridência rasga o dia. Registra-se um fato.

Um catador de latas na praça.

Outro fato: a paciência de HD, que continua no mesmo banco, a observar o cidadão.

O sujeito fazendo o que considera o seu trabalho.




As andanças de Aldo. Assim as narrativas que o rapaz alongava noite adentro, enquanto ouviam “Stairway to Heaven”. HD meio sonolento e Aldo empolgado, olhar fixo no teto, mãos sob a nuca.

Suas andanças. De como caminhava para chegar ao colégio. Quase uma hora para ir, uma hora para voltar. Demorava mais para voltar, pois tinha fome e o sol não estava manso.

Nem concluíra o ensino médio, precisando trabalhar ao lado do pai, um marceneiro. Igualmente nada de curso técnico, e assim nem operário Aldo conseguira ser.

Ajudara uns parentes numa colheita de milho, pros lados de Monlevade, mas, muito sonhador, não se adaptara às rotinas rurais. Preferia as caronas nas estradas, almoçar numa churrascaria de estrada, ouvindo modinhas de viola ou folk-rocks ianques. (HD logo imaginava os passos adiante na atmosfera sonora de um Bob Dylan ou Neil Young) Gostava de seguir trilhas nas montanhas ( o que muito agradou a HD) e pescar noite adentro, “aquelas de lua bojuda que nem laranja”.

As pensões eram luxos de fases boas, quando conseguia um emprego de carregador ou ajudante. Freqüentava era albergues, ou deitava-se em bancos de praças (“menos agora, camarada, depois do que fizeram com aquele índio pataxó”)

Numa serraria, onde trabalhava pesado, até sábados, altas horas, “pros lados de Valadares”, ousara olhar para a filha do patrão, “linda mulata de cabelos fartos e lábios generosos”. Mas o romance durara pouco, alguém dera o alarme, ele se viu fugindo na noite para não apanhar dos colegas, muitos pagos pelo patrão, ou irados de inveja.

Então resolvera descer em BH, pegando o trem que vinha de Vitória. Bebendo num botequim da Lagoinha, encontra dois boêmios que lhe oferecem emprego. Carregar móveis. E eis que está ali, a narrar seus “causos”.

Enquanto a voz pausada e provinciana de Aldo é emoldurada pelos solos de guitarras de velhas bandas inglesas, HD vai pensando naquele Viramundo ali à sua frente, naquele Pedro Páramo em seu On the Road mineiro, vivendo nas estradas, contando com caronas, gozando amores esporádicos. Tudo muito sedutor, algo literário, mas HD sabe que, por mais que sinta-se tentado, jamais se arriscaria a uma vida assim.é filho de funcionário público, educado a prezar conceitos como segurança, conforto, postergação dos prazeres, preocupação com o futuro.

HD sentia-se uma formiga, curiosa, a ouvir as narrativas da cigarra.

HD sempre incentivado a ser o bom aluno. Lembra de sua infância. Sete da matina. Manhã fria. Terceiro ano na escola. Subindo a ladeira para alcançar a portaria ainda aberta. A mochila pesada e a portaria distante. Os passos incertos e o morro infindável. O portão quase inalcançável. Passos inúteis, a mochila quase escorrega ( o peso do globo nos ombros de Atlas, a rocha da punição de Sísifo). A imagem do portão se fechando, o fracasso, a volta para casa, cabisbaixo, a bronca e a surra, a saudade da escola, dos brilhos nos olhares das meninas, a merenda que poderia compartilhar com os colegas, agora mastigada e engolida entre lágrimas, sozinho no quarto, no canto da cama.



Um dia, certa manhã, HD foi tirar a segunda via da carteira de identidade, o famoso RG. Mais de uma hora na fila, juntamente com muitos jovens iguais a ele. Lembrava que da última vez fora a fila para o alistamento militar, e que toda mulher ou mocinha que passava era prontamente motivo de ironias e gracejos, a se propagar por toda a fila, como um rastilho de pólvora.

Depois de assinar (nervosamente) seu nome, espera para tirar as impressões digitais. Ali está. Hector Dias Guimarães de Almeida.

Um funcionário frio e ríspido, mecânico tal uma máquina, aparece, logo tratando-o tal um criança, a segurar suas mãos e, um a um, vai sujando os dedos com uma tinta negra. Sempre exigindo a passividade, o oficial carimba-lhe os dedos contra as folhas e o papel timbrado esverdeado, onde jaz uma foto sua.

Na hora de lavar os dedos, a estopa ainda mais suja. Mas oficial insiste que é ali que ele deve “limpá-los”. HD não percebe a inscrição na parede, onde é imperativo usar a pia após a estopa, e é novamente abordado pelo oficial.

A procura da eficiência, o oficial, o perfeito profissional. “Eu até poderia ser amigo dele. Ele aceitaria?” HD procura sua dignidade, meio às digitais, “O que ele terá pensado quando aconteceu com ele?” era como um ritual de passagem.

Deixar-se catalogar, assumir um número, acatar o registro dos serviços de inteligência, é isso tornar-se cidadão? E é a partir daí que se torna responsável?

Nas filas ( ele não pode evitar) sente-se como os judeus em filas diante dos oficiais nazistas, tal um rebanho sendo conduzido, uma absorção, uma despersonalização meio à multidão.

E estar ali para ser checado, analisado, rotulado, catalogado, numerado, classificado, encaixado, adaptado.

- Não sou um número, não sou um código em série, sou uma pessoa.

Tal uma personagem de Kafka, reduzido a humilhação de seu bizarro processo, triturado nas engrenagens da burocracia, HD percebe-se inserido num jogo do qual desconhece as regras. Um jogo no qual ele já nasceu perdedor. Ou não?





Informado sobre inscrições para emprego, numa repartição pública, HD para lá se encaminhou numa terça-feira de manhã indecisa.

É atendido por duas recepcionistas, que se confundem nas informações, mas prontamente auxiliadas pela secretária ( a loira junto ao computador), ao explicar com mais clareza. HD recebe os formulários para a inscrição, mas está mais atento ao movimentar das mulheres, todas na faixa dos vinte, vinte e cinco, e principalmente a morena que está junto a mesa, a folhear uns maços de folhas, fingindo trabalhar, ao que parece, não mais que uma estagiária.

Ela, a morena, com suas sandálias transparentes e as curvas dos delicados pés, lisos e claros, o fascinam, a ele que não sabe se se concentra nos dados a serem cuidadosamente preenchidos ou nas formas da moça. Vem brotando aquele entranhado sentimento de impotência, de estar diante de mulheres interessantíssimas e, infelizmente, para ele, inalcançáveis. Que homem conquistaria aquelas mulheres? Que rendas mensais devem possuir?

E ainda entra outra, cabelos curtos, e se propõe a ajudar a loira, ao computador, com pose de ser a responsável ali. E o caso é que elas não se aquietam, pois parece que, em suas complexas funções, precisam ficar saindo de salas e entrando em gabinetes, alisando os cabelos, ajeitando os vestidos, deixando uma mescla de perfumes no ar. Como pode um jovem rapaz se concentrar assim?

Finalmente, ele preenche a ficha, o que fez lentamente, degustando o vinho fino, a beleza viçosa daquelas mulheres. Que estão ali empregadas para conseguirem empregos para outros. E seus pais estão empregados? Quem sustenta os seus lares? Gastam seus salários com estudos ou embelezamentos?
Lembra dos comentários do pai, o velho funcionário público, quando sabia que outro pai de família esta desempregado, “Que é pra deixar vagas para as filhas dos bajuladores!” e que era uma verdadeira vergonha aquelas mulheres levando os cargos dos homens, que passavam, muitos, a ficar em casa, lavando a louça e passando roupa.

E aqueles homens a perambularem pelos pontos de ônibus, oferecendo CDs piratas, capas para celulares, isqueiros coloridos? Quem conseguiria um cargo para eles? Ou serão todos realmente supérfluos?

E quanto aos crimes cometidos por desempregados? Os índices alarmantes de violência, assaltos, golpes com cheques, distúrbios no lar, ressentimento e ódio contra as mulheres!




Um dia, desta vez manhã ensolarada, HD numa fila de emprego, no bolso a carteira de trabalho e previdência social, acomodado na portaria da agencia de recursos humanos, lendo atento e alheio ao redor, segurando firme o cartão com o número da senha para atendimento.

Aí, de súbito, uma voz curiosa:

- Você é comunista?

HD olha o outro, um tanto surpreendido. “Quem será esse aí?”

- Ainda estou estudando...

- Ah, bom. (diz com certo alívio) Então, estude bem. E tenha cuidado. É preciso atenção e bom senso.

“Quem ele pensa que é, para ficar dando conselho? O que ele considera “bom senso” ? E por que “cuidado” ? Até parece que estou lendo algo proibido!”

E, com dedo médio marcando a página da leitura, observa a capa, vermelha, do opúsculo. Em garrafais, “O Manifesto comunista”, Karl Marx e Friedrich Engels.

continua...

LdeM

domingo, 14 de março de 2010

Náuseas de Estudante - final do C1

(...)


A ressaca lhe dificultava e orientação meio a claridade derramada. Piscando, Pôde divisar, através das lágrimas, alguns madrugadores (às nove horas, numa manhã de domingo!) entre as árvores. Alguém corria atrás de um gato. A mão esfarelando um bocado de pão.

Havia movimento no corredor. Um grupo montava ali alguns equipamentos, dos quais escorriam miríades de fios que serpenteavam pelo chão. HD julgou distinguir uma câmera de vídeo.

No sanitário, porta cerrada, ouvia exclamações em linguagem que diria técnica. Enquadramento, cena tal e tal, plano médio e depois o close-up. Uma voz mais sonitroante incensava Glauber Rocha e lembrava Nélson dos Santos. “Glauber Rocha e Deus e o Diabo no Sertão de Canudos”. Uma insinuação feminina esclarece que esquecem ali os créditos ao Duarte.

Outras duas jovens vozes masculinas se alternavam junto à amurada.

- Quem foi (e ainda é) o maior inimigo de Hitler?

- O maior deles, você quer dizer, dentre tantos! Churchill, Truman, Stálin, sei lá...

- Não, você não entendeu. Estou me referindo a Charlie Chaplin!

- Ah, entendo! O cômico contra o espírito de gravidade, o risível contra a dramaticidade trágica!

Carlitos, “de bengalinha e chapéu-coco, sapatos compridos, olhos melancólicos”, perambulando sem eira nem beira, com um cão raquítico, um menino maltrapilho de olhares carentes, atravessando faminto a existência entre mercadorias. Faminto, “e sabes a arte sutil de transformar em macarrão / o humilde cordão de teus sapatos”, patinando nas lojas de departamentos, à beira dos precipícios do consumo, para um mercado, para uma máquina, na qual o ser humano não passa de uma engrenagem, nunca senhor do progresso, mas escravo. Ovelhas num aprisco ou operários numa fábrica, qual a diferença? Moído nas imensas engrenagens da indústria, ou esbravejando discursos irados, movendo o gado humano das fábricas e dos exércitos, um pobre barbeiro judeu a ser confundido com um ditador histérico,mas um pobre barbeiro judeu que diante dos microfones não hesita em lembrar “vocês não são máquinas, vocês são seres humanos”, ó Chaplin, “ó Carlito, meu e nosso amigo, teus sapatos e teu bigode caminham numa estrada de pó e esperança”, Canto ao homem do povo Charlie Chaplin.

O diálogo ( e o devaneio) é cortado por uma voz – seca, pausada, obviamente masculina – lendo fragmentos de um possível roteiro, algum volume que segue folheando entre os atores. É ouvido atentamente até que a voz feminina – aquela insinuante, de outrora – faz um delicado aparte. Ressalta uma fala, deixa claro o tom flâneur do diálogo.

- Ela está emocionada, mas não demonstra. – HD se ouve, falando sozinho, na solidão da privada.

Outra voz anuncia que tudo pronto para o ensaio. Movimentação. Alguém entra no banheiro. Água escorrendo na pia. Chiado de cigarro afogado.Fumo se espalha no ar. Num pigarrear, é um homem. Passos e hesitação. Aproxima-se da porta. Desiste. Afasta-se. Silêncio.

Quando HD saiu pôde notar um casal com trajes ao estilo anos sessenta ( pelo menos é o que parecia). Casal a conversar, num idílio plácido, ao longo do corredor, e seguidos pela lente da câmera.

HD avançou, meio constrangido, junto a parede, para não incomodar as filmagens. Cuidados em vão, pois o casal desfez a pose, e num esboço de sorriso, voltou a posição inicial. Logo incorporavam as personagens.


No quarto, somente o ressonar dos adormecidos. Antro abafado, aquele. Suprido de luz, mas não o suficiente. E se abrisse as janelas? Não, logo apareceria alguém para incomodar. Olhou ao redor. Fotos, cabides, aparelho de som, revistas, pilhas de livros, roupas. Sobre uma das cadeiras, uma brochura. O que será?

Folheando o livro, encontrou. “Todos os problemas são insolúveis”, e outra, “ a solução é a conduta católica”! Alguém replicava, pois isto é “supressão da vida”...

A prosa de botequim logo o interessou e, em pouco, HD se divertia ao lado do amanuense em pleno carnaval de l935, imaginando como seria a fascinante donzela Arabela.

- Mas o homem espia o homem, inexoravelmente.

Ao pé da página alguém anotara à lápis, lisez les classiques, lisez Proust. Certamente um conselho de Henri.

Mas HD insistia em continuar na leitura do presente volume. O tímido amanuense descobria uma pista – descobrira onde morava a sua amada. Mas havia ali qualquer coisa de mentalidade entreguerras que HD não entendia. Algo a que o filósofo (o Castillo) se referira no dia anterior – “uma necessidade de tomar partido”. Esquerda e Direita. Comunistas versus fascistas. A queda da Bolsa, o desemprego, a fragilidade das democracias liberais. A guerra civil espanhola. A diplomacia de Chamberlain. A intentona comunista na Era Vargas. Intervenção do Estado. Guerra Fria. Hoje somos neo-liberais ou não. Ou podemos mesmo escolher? Querem dizer que social-democracia não faz sentido? Conciliação que nem tentamos: vinte anos de ditadura direitista...

Na repartição, o amanuense arquivando mágoas, registrando as vidas frustradas dos colegas, as ilusões perdidas. E um amigo às voltas com o mito faústico – sim, era uma vergonha não saber alemão.

HD pode imaginar o escrevente atrás de um balcão, a rabiscar uns versos, que prontamente oculta, ao notar o vulto do chefe. E é uma cena tão vívida! Ele fazia o mesmo! No balcão da papelaria, a ocultar seus rabiscos, os tantos livros.

Sim, lembra que o patrão até lia uns volumes lá no Caixa. Até livros em inglês. Não fora lá que lê descobrira James Joyce? Os contos sobre os cidadãos dublinenses e suas andanças e frustrações?

Já esquecera as tardes imensas nas trincheiras? Ou chafurdando nos charcos da guerra do Paraguai? Ou listando revoltas do obscuro Período Regencial? Ou indeciso a que lado defender na quase guerra civil que foi a revolta constitucionalista de 32 ?

Nos volteios do pensar, o livro quedava aberto sobre os joelhos, esperando atenção. O olhar de HD seguia as capas multicoloridas das revistas. Uma perna nua. Ou lábios sorridentes. Dois títulos em francês despertam certa atenção. Dois volumes caídos sobre os sapatos.

Inclinando-se, pescou os livros: “La Nausée”, Jean-Paul Sartre, o diário existencial de Antoine Roquetin, com páginas cheias de rabiscos e sublinhados, e “À l’ombre de las jeunes filles em fleur”, Marcel Proust, onde, na primeira página, o francês (o próprio Henri!) rabiscara: “Il dejá parlé: Lis-moi, pour apprendra à m’aimer” (de Baudelaire, HD descobriu depois. “leia-me,para aprenderes a me amar)

- Quem disse?

Como a responder, eis uma pancada na porta. Repetida, antes que esboçasse reação. “É alguém que bate à porta. Só isso e nada mais!”

Não era o corvo. Era o francês. Pô, só de pensar nele! Que nem o diabo que.

O caso é que ele queria saber se ainda sobrara cerveja. O que poderia dizer? Distribuiria a cerveja do Darío? Mas acordaria o amigo por causa disso? Por causa de um cara que cura uma ressaca com outra?

- O Darío tá dormindo, Henri. – e abriu um pouco mais a porta para o francês conferir tão vera desculpa.

- Je puis voir. Rien ne trouble le eternel repos. (Eu posso ver. Nada perturba o repouso eterno)

E foi entrando, se sentou e nada mais.

Observou, algo sonâmbulo, os livros que HD folheava, ali deixados sobre a cadeira. Reconhecendo-os, declamou com ar de enfado:

- "La chair est triste, hélas! Et j’ai lu tous les livres.”

Um corpo se virou estremecendo a cama de molas.

- Ótimo isso, acordar ouvindo versos de Mallarmé!

Darío sorria, olhos no teto, mãos sob a nuca.

- O que ele disse? – eis HD, todo curioso.

- Que já leu todos os livros. Ah, vã pretensão!

Darío se voltou para o lado, descobriu o relógio do Mafra e foi se levantando, Vers midi, mon ami!

Então HD descobre que passara três horas lendo!! Concentrado em dramas alheios, como um bom leitor-voyeur! E ainda mais surpreso ao ver Darío despertar de bom humor!

- Bem, é hora de notre dejeuner. – Jogou as cobertas para um canto e foi lavar o rosto – Mas almoçaremos aqui mesmo.

E diante do olhar interrogativo de Henri:

- Ó Bordeaux, esqueceu que o bandejão hoje é lá na Direito? – voltando-se para HD – Sabia que aqui temos o bandejão itinerante? Cada domingo num canto diferente! E eu não vou atravessar a cidade para buscar comida! É só cozinhar um macarrão aí.

Mas HD percebia que o amigo estava animado sim, e muito. O que teria acontecido noite adentro?

O Mafra só levantou quando o cheiro de batata cozida invadiu o quarto. Darío planejara uma maionese, e o Mafra, claro, ajudaria – a comer. HD notou que ambos andavam um tanto reticentes, não falavam o mesmo idioma. Darío conversava em francês com o Henri, e o Mafra xingava em espanhol, !Y uma mierda! !Que sé yo?!

E HD ajudava, silente, lavando pratos e talheres.

Depois do banquete dominical – maionese, arroz à grega e macarronada – com os quatro à mesa (Henri se sentara à beirada da cama) regado à caipirinha (leves doses, claro) e muitos ?Qué hay? ? Que pasa?, HD se apresenta voluntário para lavar a pilha de vasilhas.

Foi nesse momento de dona-de-casa, tendo os titulares do quarto se ausentado – sem qualquer justificativa – que surgem Rosália e a irmã, dadas à sussurros junto à porta. “eles arrumaram um serviçal?”, ria a madame dos saraus.

Claro que HD disfarça o incomodo, e exagera o sabão nas panelas. Solícito por cordialidade? Algum desconforto por causar despesas? Estaria incomodando?

E as mulheres até se sentaram na cama. “E o Aranha, hein, rapaz?”

- Saíram por aí, nada me disseram. (Estaria soando muito antipático?)

No entanto, os estudantes logo retornam. Trocam lisonjas e anedotas. E saem (o quarteto) parolando pelo corredor e logo as vozes somem. HD agora pode terminar a lavação e até varrer o quarto. Uma ordem a surgir no caos primordial. Mas, Une bière, mon ami!, Henri surgia à janela, pedindo uma latinha. E aproveita e mendiga um cigarro.

- Pobre do Darío com esses amigos que ele arranjou. – resmungava um incomodado HD, a ordenar os livros na estante.

Ousou ligar o rádio, um rock’n’roll na rádio comunitária do Santa Teresa, “People are strange...”, mas o vizinho do quarto ao lado deu o grito. O porteiro chegou à janela:

- Quem está perturbando a ordem?



(fim do Capítulo 1)

domingo, 7 de março de 2010

Náuseas de Estudante - c1 da p1

.
..
...


- Não. Você não vai gostar.

Darío aprontava-se para sair. Mafra o esperava à porta do quarto.

- A gente vai descer aí por umas boates...

Isso para evitar que HD esboçasse qualquer intenção de acompanhá-los. E faltou advertir que “era hora de menino estar na cama”. Mas HD perdoou o amigo, ao notar seus esgares ébrios.

De fato, e sem detida averiguação, nada sobrara da caipirinha. E da cerveja, só meia dúzia de latinhas.

No problems!”, jogou um colchão junto a parede e adormeceu. Diluída embriaguez sem sonhos.

Um rangido. Um ruído seco. Um duelo de vozes. Na escuridão, um brilho de mínima chama flutuando, intrusos!, um cheiro de fumo. Devia ser alta madrugada. Quanto tempo dormira? O galo não cantou ?

A voz agastada de Darío e a voz solícita, implorante de Mafra. Esquecidos de sua presença, certamente. Deixam-se cair nas camas, do jeito que chegaram. As molas em estalos. O brilho do cigarro parou junto a parede, HD percebeu o par de botas que caiu ao seu lado. Mafra se acomodava ainda atormentando Darío, que jazia calado.

HD ainda ouviu alguns resmungos, mas o sono pesava e.




Foi um longo suspiro. Um profundo resfolegar de um touro bravio.

Então bruscamente arrancado do sono, aconchegou-se, desejando posição mais cômoda – mas somente conseguiu bater com a cabeça. Que espécie de cama era aquela? Onde estava afinal?

Próximo a testa dolorida, pessoas passam. Seguem a carregar pequenos embrulhos, bolsas, sacolas plásticas multicoloridas. Sussurram, abafam risinhos. Luzes se acendem: um estreito corredor! Ei, onde estou? Ele ali engavetado numa poltrona dupla, corpo encolhido, adormecido num ônibus de viagem.

Olhos atentos numa face pálida examinam. Deve ser o motorista. Ele observa o rapaz abraçado a uma almofada.

- Parada final, companheiro.

Ei, dormi a viagem inteira? As outras tantas paradas mergulhado no sono? Atravessando a província todo sonâmbulo? Vagas lembranças: o radinho, a chiar em precária sintonia, o som sumindo, e voltando, em oscilações. O locutor a exaltar um drible perfeito, lance direto numa marcação cerrada, a voz esvaindo-se, fundindo-se ao sonho. Ou a melodia amargurada de um Pink Floyd em sua punhalada final, enquanto solos de guitarra melancolicamente rasgam a noite. E, diante do olhar sonâmbulo, a longa estrada até as estrelas, meio apagadas, assim através das janelas, nas frestas das cortinas. Outra estação: uma canção dos anos setenta, uma sensação nostálgica: ouvira a melodia in utero ? , e o afastamento, uma inquietação, uma saudade de abraço de mãe.

Sim, adormecido. Estrada e noite adentro. Entregue às pálpebras pesadas do motorista, e sua pupila irritada entre os faróis. Desperto somente agora meio a relincho tão irado: o escandaloso freio em expirações derradeiras. Mas quantas vezes não terá rasgado a noite – parada após parada! É imensa, a província! E ele ali aconchegado como um feto, a abraçar uma almofada, a ouvir uma sintonia que é só chiado!

Sim, um sonâmbulo é quem deve ter descido nas outras paradas. Ido aos sanitários, bebido uma água mineral, mastigado uma rosquinha açucarada.

Mas era hora de saltar fora. Foi o que fez, meio alheio, a esfregar as olheiras, a sentir câimbras nas pernas. Agarra a mochila, desliga o chiado dos fones, sobe o zíper da jaqueta. E desce na plataforma – essa névoa, exalações de óleo diesel, esse aroma de café, solícitas vozes meio aos estrondos do freio a ar, essa agitação de malas soturnas, essas promessas de novidade.
É um arrastar-se ali pelo saguão, com exagerada bagagem – a mala de roupas e calçados, a valise de mão com livros e rascunhos, a mochila – a procurar um guarda-volumes. Logo á direita os sanitários: rosto lavado, um pente no cabelo, dentes lixados. Aí então foi experimentar o café da rodoviária – café com leite – e uma rosca açucarada.

Não eram ainda seis horas, e do alvorecer apenas um esboço. Ali sentado, aquecido pela jaqueta, estômago saciado, a dissipar-se a sonolência, as pernas esticadas perdem o torpor. Fones nos ouvidos: um rock’n’roll, um refrão: não pegue esta garrafa, “don’t take this bottle!” Estamos em tempos abstêmios. Lembrai-vos de Al Capone! Mas a atenção passeia através do saguão: chegam outros ônibus – ouve os relinchos lá embaixo, nova maré de malas e valises. Faces sonolentas invadem tudo, disputam cadeiras, conferem bagagens, acorrem aos telefones. E passa um momento – e novo grunhido dos freios, agitações de bolsas coloridas, de mão e mão, senhoras arrumam seus lenços, crianças seguem a cochilar, rapazes apalpam os bolsos, senhores fecham os casacos, alguns reconhecimentos, seguem-se abraços, sorrisos. O sono continua.

As rodoviárias se fundem. Um espreguiçar em mil cidades. O bocejo em todos os lugares. Onde despertara e outros onde jamais estivera. Saguão morno, um casal sem crianças, um vendedor de amendoim torrado. O pai leva a mala, ele compra a passagem, sintoniza uma rádio – e ouve junto aos conselhos uma cantata de viola.

Súbito, ele vê uma cidade adormecida, nas brumas, um café expresso, a aurora vindoura, as curvas das montanhas, o mar de morros! E vê um ser imenso com tentáculos de concreto e eriçados pêlos de metal. E algum lugar o sol surge nas colinas, na névoa, na pupila cansada. O asfalto cobre a relva, os arbustos definham no cimento. Um novo mecanismo!

Uma lenta olhadela ao saguão, e lembrou-se da bagagem. Cabeça baixa, procura na mochila um cupom. Seguiu um raio de luz derramado no ladrilho. Foi aí que realmente esqueceu onde estava.





Uma pancada na porta. HD sentiu-se. Enrolado. Um feto na tepidez das cobertas. A boca seca, um peso na nuca. Outra pancada. Abriu os olhos: sim, agora era mesmo dia. O sol rastejava na parede oposta. Derramava-se pelo cabide, pelo chão. Já flutuava alto, invadia o quarto pela vidraça acima da porta.

Como as pancadas se repetissem, as molas se agitaram. Darío se levantou, ao mesmo tempo que Mafra, escorado à parede. Dário, mais próximo, abriu a porta, os olhos lacrimejantes ao sol.

- Bom dia, colega. Esqueceu o nosso convite?

Darío engolia um bocejo, esfregando as pálpebras já irritadas.

- Pô, Alex, cedo assim! Nem domingo vocês me liberam!



- Ora, Darío, pois domingo mesmo. Dia separado para pensarmos além dos afazeres materiais.

HD, dobrando as cobertas, enrolando o colchão, percebeu do que se tratava. Darío faltara à missa ?

O Mafra já blasfemava: - Ah, vamos dormir, Darío. Despacha esses carolas. Incomodar deus pra quê?

E se enrolou nas cobertas.

Darío não ocultava certa irritação, mas via-se seu constrangimento. Olhava agora para HD, que enxertava o colchão debaixo da cama, onde o fotógrafo novamente ressonava. HD intuiu que Darío pedia uma ajuda para se livrar de um compromisso do qual já se arrependia. E espocaram imagens de um Darío fiel colaborador das comunidades de base, freqüentador da biblioteca paroquial.

- O que é que você andou prometendo, Darío? Você, ovelha desgarrada...

Confabulando, no corredor, com os prosélitos, percebendo que o caso ele mesmo é que devia resolver, Darío logo os despediu.

HD lavava o rosto, na pia minúscula, quando Darío retornou.

- Prometi aparecer no outro domingo.

- Por que tanta atenção com essa gente?

Então, surpreendido, HD sentiu em si a hostilidade vazada nas palavras. Lembrava então o furor sectarista da família de Sônia, oprimindo a menina com uma devoção neurótica.

- Ah, não é grupo entusiasta! Nada de aeróbica do Senhor! O Alex é cuidadoso leitor do Boff.

- Se refere a esquerda católica?

- É. Para atrair o Alex para os nossos estudos marxistas, deixe-me ser atraído para as suas reuniões sócio-devocionais.

Darío preparava o café amargo – pelo visto sua especialidade gastronômica do momento – bocejando, lançando olhadelas às cobertas desfeitas. – Você não liga se eu.

- À vontade. Essas olheiras dão medo. Vou ficar lendo ali no canto.

HD resolvera ir antes ao banheiro – e logo.

(...)

LdeM