sábado, 18 de setembro de 2010

PARTE 2 - Insônia das Almas - Cap. 1






Parte 2 de DESENCONTROS GRAFADOS

Insônia das Almas




“As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.”
.
(Carlos Drummond de Andrade, “Os Ombros suportam o mundo”)
.
INSÔNIA DAS ALMAS
Capítulo I
O dia finalmente chega ao fim. O último funeral se arrasta quase ao anoitecer, os últimos familiares deixando o cemitério quando os portões se fecham.

Ajeitando o vestido, amarrotado por tantos abraços, a viúva, sempre amparada pela nora, recebe os derradeiros pêsames murmurados sob os torvelinhos de folhas secas, na brisa de frescor crepuscular.

Ambas de profundo luto, as estrias soturnas a marcarem as faces, a avançarem em passos medidos, cabisbaixas, junto aos túmulos, à sombra de poucas árvores seculares.

O cair da noite estremece os céus. Sônia Regina levanta o olhar das linhas impressas que transmitem impressões de tempos de outrora, rascunhadas por mãos de remoto passado. Um homem a sofrer por ciúmes nos salões parisienses. Seu vulto se esfumaça, quando Sônia levanta o olhar.

O tilintar de chaves destaca a figura do funcionário, e seu olhar de enfado. Altivo e solene, atitude assim respeitosa, as mãos unidas sobre o ventre, as chaves seguras, até indiscretas, deixa o olhar deslizar pelo cortejo, sem fixar ponto algum, flutuando acima dos semblantes desalentados, para ele comuns, vez ou outra a esboçar um movimento leve de cabeça num cumprimento mudo. A viúva, passos lentos, responde com mais silêncio.

Um fulgor de luar irrompe distante. O desenho, que marca a página lida, estremece. À bico de pena, reproduz “Dois homens contemplando a lua”, de C.D. Friedrich, onde vultos de homens, sob um grotesco salgueiro, acima de presenças abruptas de rochas, meio a névoa e os galhos secos de uma árvore a muito tempo morta, observam um distante pálido luar.

O cair da noite agora incomodado pelo motor rude da camioneta, a surgir no fim da alameda, a conduzir os coveiros e suas ferramentas. Alguns do cortejo se voltam. Sônia Regina observa quando o veículo suspira junto a escadaria da Administração. Os coveiros descem e seguem por um calçamento, e logo desaparecem, eclipsados pelo prédio.

Almas inquietas clamam sob tormentos. Tantas lágrimas em vão. “O infindo gotejar das lágrimas humanas.” Sob o “Eine kleine Nachtmusik” de Mozart, que muito agrada a Sônia Regina. Além de Beethoven e, claro, Johann Sebastian Bach. Mas ela sente a presença das melodias consigo, sem ouvi-las realmente. Nem um walkman ao seu lado. Não costuma carregar a civilização no bolso, além de roupas, identidade e um livro. Manter longe os urbanóides. O cemitério é o único lugar calmo na cidade.

O único lugar onde pode encontrar-se consigo mesma. A paz entre os mortos. “Dos Mortais para os Mortos”. MORITVRI MORTVIS. “Os mortos oprimem as mentes dos vivos”. Em forma de monumentos, nomes gravados no mármore, pedras com inscrições, com a ostentação dos túmulos. Opulento mausoléum se ergue.

Toda vez que vem ao cemitério, Sônia Regina se percebe a pensar em certa Sabina, de um romance tcheco, que procura um pouco de paz, andando em cemitérios, os de Praha, ou de Paris, como o de Montparnasse, “tentou acalmar-se indo a cemitério”, quando tornava-se insustentável a leveza de seu ser. E cada túmulo, por modeso que seja, atrai sua sensibilidade, tal a do senhor Lockwood no pequeno cemitério da tragédia naquele morro dos ventos uivantes.

O sonido das chaves de outro funcionário, lembra a Sônia Regina que é hora de se fecharem os portais do cemitério. Voltando a atenção ao livro aberto em seu colo, à imagem que ela mesma reproduziu, um arrepio de fim de tarde insinua-se sob o seu casaco escuro a erguer-se até a nuca, à base de seus cabelos curtos. Lembra que precisa voltar para casa, mas antes devolver o livro na Biblioteca. Fechando-o, seus dedos alisam a capa, “Marcel Proust – Em Busca do Tempo Perdido – No Caminho de Swann – Tradução Mário Quintana – 18 ª edição”, ali encostada à capela, cercada por túmulos, com suas cruzes e anjos. O livro repousa, a sua cabeça se inclina, vê a si mesma. Mocinha em vestes de luto sentada à porta da capela, tendo diante de si a paisagem de criptas, na inútil ostentação de mármore e imagens. Símbolos da dor inútil na inutilidade de todas as coisas.

Um gradil de ferro, uma árvore secular, inscrições que tornam-se ilegíveis. Ali repousa, quiçá eternamente, uma donzela de ascendência belga, a primeira a ser sepultada em tal campo santo. Quem terá sido essa senhorita Berta, saída da Europa e que, cruzando o vasto oceano, veio morrer nas montanhas da rústica América. “Sepulturas cheias de sonhos abortados.” E povoam lembranças de um sombrio TH, a deslizar em penumbras, que julgava os cemitérios “labirintos infectos”, incapaz de sentir sua paz de espírito, naquele soneto que ele, TH, dedicara à memória de Augusto dos Anjos, e começa assim, “Atento às cinzas sobre os túmulos Sentindo o odor da Fatalidade...”

Uma capa esvoaçante, sombria. Cartola negra. Face pálida sob a farta barba. Um medalhão dourado devolve a luz da lua lúgubre. Uma voz rouca e profunda ressoa. Cavernosa. “Mortos! Saíam de seus túmulos! Venham a mim! Pois eu, eu não creio em nada!” Não crê, porque não crê. Um cruzar de relâmpagos, um redemoinho de vento. Ei-lo derrubado ao chão de folhas secas. E continua não crendo em qualquer juízo ou punição, “aquela voz era sombria como a do vento à noite nos cemitérios, cantando a nênia das flores murchas da morte”, não é mais Coffin Joe, mas Álvares de Azevedo.

Naquela soturna e surreal “Noite na Taberna”, a indagar “O que é o homem? É a escuma que ferve hoje a torrente e amanhã desmaia, alguma coisa de louco e movediço como a vaga, de fatal como o sepulcro!” O que sou eu, EU, que dá valor a um Ouro para assim afirmar o Eu? “Jesus te ama” só me emocionaria se Jesus significasse algo para mim. O Eu está tão afetivamente carente que qualquer um que o ame é sinal de esperança. Considerando ainda que Jesus seja sublime e divino então é uma honra, um privilégio, que o Eu seja amado por semelhante Ser! Mas e se falarem “Elvis Presley te ama?” Elvis Presley para o Eu tanto fez, tanto faz, que honra traz está condição, a de Elvis Presley amar o Eu? Antes fosse o Thom Yorke! Ah, meus botões, meus entediados botões, quando se está apaixonado, é o Eu que elege o Outro e valoriza, e em seguida espera o mesmo sentimento! Ora, é nada mais do que o Eu amando a si-mesmo através do Outro!

Passos no pavimento. Asfalto até na morada dos mortos. Afinal, os vivos precisam de trabalho eficiente. Mas por que semelhante lugar de desespero? Nada mais que um museu ao ar livre, com tantas esculturas que são verdadeiras obras de arte! Mas é um monumento à finitude. Os anjos de mármore. Não há esperanças? Os judeus é que são apegados à cemitérios, com inscrições e adornos, um culto à memória, pois ali descansam os mortos até o glorioso dia da Ressurreição. Há esperança! O cemitério é um símbolo da esperança! Os mortos não viram cinzas nos ares, mas aguardam a trombeta da renovação! Oh, nada mais doloroso que perder a fé!

Mas, meus sofridos botões, o assunto 'morte' é um tabu no baile de máscaras da vida social! Um jovem, sarcástico, mostra algo a outro. Jovens que não chegaram a duas décadas, não têm qualquer concepção de finitude. Mostra algo entre os dedos e diz, num sorriso, “Veja com os seus próprios olhos que a terra há de comer!” E um senhor, ali ao lado, esboça sua desaprovação, com o profundo mau-gosto do jovem. Não é delicado lembrar que morreremos. Memento Mori.

Preciso voltar para casa, fado meu! Um casarão, flores na varanda, uma margarida artificial para atrair os colibris, um sotão com restos de uma velha cômoda, farta de cadernos de séries anteriores, e a primeira bicicleta da irmã, com os pneus furados e pintura sumindo na ferrugem. O tempo vai passando e nada permanece. Nenhuma calma sob os céus. É estranho não podermos dizer simplesmente “Adeus” às coisas e aos seres! Carregamos trastes de velhos tempos, lembranças de amores passados, memória dos mortos sepultos.

Um casal passa junto a estátua do Cristo, em semblante de dor e penitência, Olha para nós, do alto de tua Piedade. Um casal. Jovens? Não, talvez trinta anos. Filhos de algum falecido? Talvez daquele Sr. Faria, ali sob a sombra de quase noite. Ou daquela Sra. Fátima, onde um jarro de cerâmica exibe pétalas que murcham.

Lembranças de amores passados. Um certo beijo com gosto de chocolate. Não fôra o primeiro, mas o mais emocionante. Ela completaria quinze anos, com promessas de festa e baile, e dona Clara Selma não disfarçava sua hostilidade para com o jovem, com aquele ar de superaplicado nos estudos, mas incapaz de um “bom dia” que soasse sincero.

Tantos encontros às escondidas, ou quando terminava a missa e ela ficava na praça. Hector, o nome dele, e pouco mais de dezoito, todo orgulhoso. Mas todo imprudente, ah esses meninos!, em aparecer no salão do baile, na manhã da festa. Claro que aproveitou-se da ausência de mamãe ou do Sr. César, nem a irmã por perto, e dizendo-se curioso quanto à preparação do baile, quem seriam os pares, alguém que eu conheça?

Aí ele se aproximou, queria alegrar a querida. Ela ajudando na decoração do salão, com muita seda colorida, balões nas cores do arco-íris, fitas a descerem de vigas de madeira, também nas cores mais exóticas, e ele se aproximava, sem hesitação. Ela comendo uma barra de chocolate. Ele a surpreende. Ela está contente por ele estar ali, e oferece o chocolate. Ele aceita. Ela exibe a barra entre os lábios, e diz “Vem pegar”. O beijo. Gosto de chocolate.

A festa, a prometida festa. Acham que assim acertam tudo! Quando a menina pede um vestido é prontamente atendida, isso não é coisa que se negue. Quando a mesma menina mostra o desenho que terminou de colorir naquela tarde, trancada em seu quarto penumbroso, é sutilmente afastada, não há tempo, há um relatório, há uma planilha de cálculo, há uma pilha de serviço, depois veremos isso. Não, ela não pode reclamar. Tem boneca que fala, tem dez vestidos novos para a tal boneca que fala, tem uma casa de bonecas, tem estojo de maquilagem, tem a bolsa que papai mandou. Quando vou ver papai? Vou visitar papai? Mas papai mora longe? Não deve fazer perguntas assim ansiosa diante do bondoso Sr. César Souza, que agora merece todo o nosso respeito e afeição! Ms ele é o pai da Roberta, não o meu!

Sem dúvida que ela ganhou uma bela festa, todo mundo comentou.; as primas então! Até a Cíntia que ficava piscando para o Hector, mas deu o maior apoio à loucura deles. Ela tentava se animar para a mascarada, mas nem as anedotas da prima conseguiram ressuscitar um sorriso. Ela, a pobre debutante Sônia Regina Dalmas, sabendo que será difícil que o seu Romeu consiga entrar no baile dos Capuletos, que já avisaram os seguranças da portaria.

Sônia dança com o primo, aquele sacana do Régis, que fica de olho no decote e só gosta de filme censurado. Outros quatorze pares ocupam a pista. Alguém deita um sussurro em seu ouvido, “Você está linda”. É ele, o audacioso, é assim que se diz?, Hector Dias, nos volteios da dança, à rigor, irreconhecível! Claro que um pouco deslocado, mas é inegável que ele é um bom ator. Não atrai atenções.

Na hora das palmas é que ele abusou. Happy Bithday for You e ele todo exaltado. É quando as tias reparam, as corujas Capuleto, sempre à espreita, mas elas entendem, sabem de quem se trata, “Ele não perde a oportunidade”. E ela, a debutante, a linda, a invejada, esquarteja, ai que termo forte!, o bolo, distribui glacê e recheio de abacaxi aos familiares, a mamãe Clara Selma, ao novo pai César Souza, a irmã, por parte de mãe, Roberta, ao irmão, por parte de mãe, Carlos, ao tio Anselmo, à tia Carla, à prima Cíntia, à tia Carmen, ao vizinho Olinto, ao vizinho Nilo, a vizinha Vicentina, ah tanta gente!, e depois recolhe um pedaço, recobre, e vai procurar o seu Montecchio, o seu Romeo. Ele é quem a encontra, a ela que atravessa sem hesitação o amplo salão. Ele a sentir-se ali o único digno de sair com a dona da festa, em abraços, “Agora você vai me dar atenção”. Ela oferece o bolo, ela sabe que ele gosta de recheio de abacaxi, ele degusta satisfeito, “Vim levar você daqui!”

No fundo do salão, ele sabia bem, estendia-se ampla varanda, e ele todo disposto a amarrotar aquele vestido, mas ela encostou-se a pilastra, no resto de luz e ouvia sua voz e o hálito de abacaxi, mas logo notariam sua falta na festa, ora, ela é a rainha! E ele não entendia, jamais poderia. Dedos que raspam seus lábios úmidos e ansiosos. Ele jamais aceitaria, mas ela se afastou.

E uma sirene ecoou. Surpreendidos? Não no passado. É que em breve o cemitério havia de fechar seus portais. Uma porta se fecha e fica tudo escuro, o mundo inteiro. Mas é que a festa exige, não pode existir sem a sua presença. É ele, o abandonado, quem fica desnorteado nas trevas. Voltará depois para raptá-la.

Com o caderno de desenhos junto ao peito, além do romance francês, Sônia Regina arrepia-se a cada passo como se mãos brutais ousassem carícias em seus seios, como se lábios com gosto de abacaxi massageassem os seus e um corpo morno pesasse sobre o seu, e não pode deixar de considerar estranho aquela ameaça sensual num campo de morte. Não sabe diferenciar os arrepios de terror ou distingui-los dos de desejo. Mas a porta fechada, as trevas caídas sobre a varanda foi a ofensa que ele nunca perdoou.

Certa tarde, seu querido vai saindo de casa, sob uma chuva fina, e alguém grita da calçada defronte, com uma sombrinha, mas ele não ouve. É ela, claro. E desiste de seguir seus passos. Aí, na tarde seguinte, ela é encarregada de devolver o vestido. Missão que ela cumpre ligeira, pois vai visitar seu querido! E ele chega e não acredita, “Até que eu não estou tão sem sorte hoje.”, ele que estava às voltas com o alistamento militar, ele que tem horror a isso de guerra, é um a dizer-se pacifista. E ele quer ser amável, bom anfitrião, com suas anedotas sem a menor graça, seus gracejos sem qualquer originalidade, a ler seus escritos, um projeto de romance de ficção científica, uma viagem á lua, sei lá, acho que ele andou lendo muito Júlio Verne, apesar que eu gosto muito de Júlio Verne, aquele no fundo do mar, no submarino, o Capitão Nemo, uma figura, pode crer!, mas o romance dele, do Hector, era um tédio só e ele ainda autocensura a cena de amor do mocinho e da mocinha, e fica lendo piadas prontas, de quem?, do Millôr Fernandes, ou do Jô Soares, sem nem ousar ser original, e piadas que estão longe de me agradar, mas vou sorrir para ele não ficar magoado.

Vou dizer que quando faço algo que vão reprovar, e sempre acontece, ou chego tarde em casa, com daquela vez, junto com a Cíntia, ela a bondosa dona Clara, mamãe toda generosa, Deus abençõe, grita, com ares de traída, “É assim que você me paga aquela festança toda!” vou matar o ridículo bom humor dele com os meus problemas? Melhor elogiar esse enredo sem-pé-nem-cabeça que alega ser o original dos originais, como é isso?, brasileiros disputando com franceses e chineses para construir uma nave para o transporte de exploradores de minério até a lua? Ele nunca leu romantismo não? Acha que vou engolir essa de que a lua não passa de uma cinzenta rocha suspensa nos céus?

Tá bom, ele não quer servir ao Exército, e eu não quero voltar pra casa. Pra quê? Pra varrer os cacos do meu vinil que mamãe quebrou? Agradeço o seu interesse, querido, mas não tenho que ir essa tarde, essa noite, então é a sua oportunidade de enfim raptar sua Julieta, vá em frente, faça logo. Pois o digníssimo Sr. César sempre encheu Sônia Regina de mimos e brinquedos, bonecas caras, mas nada de atenção, jamais preparou Sônia para o “mundo-cão”, e seu pobre papai, nauseado, o Sr. Marco Dalmas, foi para beira-mar, onde se limita a ensaios fotográficos e ler Pablo Neurda. Então que culpa eu tenho de ser é uma filha toda à marge, assim entediada, ou querendo chamar a atenção? Vou ler ali no livro sobre Pais e Filhos, “Educar não é impor, é compartilhar sentimentos e conhecimentos, preparar o(a) filho(a) para a vida”, faltou acrescentar “para a vida num mundo cruel”.

Sônia Regina aceitou o chá com bolinhos de fubá e agradeceu a dedicada dona Hilda, que conhece de cozinha, enquanto ela, Sônia, sofre até para fritar um ovo, não exagere, minha querida, que eu já assei bolo de cenoura e fiz a cobertura de chocolate, e o querido também elogia a mãe, mas ela, Sônia, quer sair com ele, andar ao crepúsculo, você sabe o que é romantismo, querido? Aprenda na poesia do poente. Ele se despede da mãe e diz que volta em breve. Pobre dele, não pode prever as sombras que a noite reserva.

A noite cai, os edifícios adquirem esta dor dourada fulgente, e brilhos passeiam nas vidraças, e os perfis de árvores e telhados se confundem. Assim também naquela época, mas era verão. As noites chegavam com uma lentidão, mornas e lânguidas. E podia-se ficar nas varandas, ou nas esquinas, em conversas intermináveis sobre lendas medievais ou contos de terror. E foi numa noite daquelas que, após aceitar bolinhos de fubá e chá, ela foi acompanhada, em sua pretensa volta para casa, pela presença e humor do seu Romeu.

Ela também se imaginava retornando, mas lembrava da angústia de um “é assim que você me paga aquela festança toda!” e seus passos se tornavam lentos, com um peso acrescido de discussões de outrora, de sonoras ofensas de outrora. Mais em silêncio do que entregues ao humor, seguem ambos, que muitos observam juntos, mas com pesarosas distâncias sem compreensão. Ela pode até se inclinar para desapertar a sandália, e ele pode até ajudá-la, mas além desse contato são duas solidões que se protegem, que se sufocam.

E se Milene estiver em casa?”, ela diz. E ele reconhece, Milene é uma amiga em comum, sabe dos desconfortos que sofrem, muito devem a sua amizade, que, em tempos passados, pode-se dizer que ela unira o casal, antes de Sônia Regina visitar o pai em Niterói, onde ficou mais de um ano, pois antes foi Milene quem conheceu Sônia na classe do catecismo e, na época, Sônia cantava bem, sabia todos os hinos e a liturgia, não se sabe hoje em dia, mas deve-se a Milene todo o carinho, ela que adaptara aquela versão para o Filho Pródigo, onde Hector era o tal filho que sai de casa, esbanja toda a herança e volta miserável, e Sônia fazia o papel da irmã que recebi o irmão, jogando-se os seus pés, pois o irmão mais velho, o que ficou ao lado da família, não aceitava a volta deste irmão irresponsável, “Imagina só, gasta a grana e volta com essa cara de remorso, e todos acreditam”, não, o irmão não aceitava o banquete para o irmão que perdeu e agora volta, e Sônia, a irmã, se jogou aos pés de Hector, o irmão, e quase beijava mesmo aqueles pés desnudos do irmão ferido em andanças, ela toda humilhada diante da perdição dele e da aceitação do retorno dele e da compreensão do remorso dele, e Sônia, não mais irmã, a pensar no gesto, durante aqueles dezenove meses á beira-mar, saindo nas pracinhas e beijando garotos bronzeados, mas sem uma mancha daquela perdição, e não que Hector fosse bom ator, longe disso, mas ela sabia ser uma boa atriz.

Chegam à casa de Milene, casada, mãe de um menino, Cássio, todo engenhoso, que devia dar muito trabalho, a ela, nova ainda, longe dos trinta, uma professora a deixar-se até de madrugada a inventar exercícios e a corrigir avaliações. E Milene não estava, mas o portão todo aberto, ela era mesmo muito distraída, coitada, achava que Deus protegia mesmo, que malandragem não tem vez, veja aí a proteção divina que nos ampara, e deixa assim o portão aberto, para qualquer um, mas somente eu e meu querido vamos entrar.

Hector, com uma voz até comovida, lá de cima de onde avistavam o bairro novo, lá da varanda nos fundos, com sua voz até apertada, comenta um filme sobre guerras, ele todo apavorado com Exército, onde numa estação de trens os soldados em despedidas, abraçam as amadas, ou acenam debruçados das janelas, e elas agitam os lenços, em choro discreto ou convulsivo, quantos voltarão para casa?, quantos ficarão caídos nos campos de batalha?, quantos morrerão abraçados às fotos de suas queridas distantes e desamparadas?, e ele tem a voz apertada, quase sussurro, e ela toda sensível, numa ânsia de choro, “Me beija”, e ele desfez aquele choro iminente com seus lábios não menos ansiosos.

E ela se lembrou de sua família? Lembra agora, enquanto caminha entre as lápides, enquanto os portões se fecham? O que Sônia Regina pode dizer para se desculpar? Quem dissera que ela era uma boa filha? Quando elogiada, e sinceramente? Mas ela se esforçou mesmo? Como poderia agradar? Vive se culpando, mas terá culpa? Quem tem culpa? Deus é o único culpado? Os homens querem fechar o lugar, mas ela vem devagar, a culpa pesa um tanto, os passos de uma mente pesada. Mas ela aceitou sepultar o choro naqueles lábios!

E ela aceitou que ele saciasse o desejo em seus seios, que aqueles lábios lambessem ávidos, e que aquela língua quente e atrevida lhe adentrasse o umbigo! Ela não só aceitou, ela desejou, ela exigiu! Não serei a condenada, serei a cúmplice! Sugue em meus peitos todo o prazer que você desejou, menino, e pelo qual esperou tanto tempo! Sugue tudo até meus biquinhos começarem a latejar, e doer e golpear com arrepios! Amasse estes peitos com força mas com perícia, com agressão mas com carinho! Ou rasgue meus lábios com os teus dentes e tire sangue de minha língua, para que ela silencie os gritos e no silencio eu possa ouvir os teus gemidos! Assim, queira mordiscar a borda rendada de minha calcinha roxa e invadir com o teu nariz o segredo de meus íntimos aromas! Não tenha pressa, mas seja menos tímido! Teus dedos aprisionam a fortaleza de minhas nádegas e preparam a invasão aos meus pontos frágeis! Deixarei que adentre o castelo julgando-o invadido, deixarei que duvide de tão pronta rendição. Tua língua já passeia em lábios outros, degusta meu íntimo prazer líquido, doando meia arrepios e uma vontade tão louca de deixar entrar a cavalaria!

Não pensava em mamãe, pobre Clara Selma, toda ressentimentos, agasalhados e acariciados, nem em respeito ao Sr. César, nem aos seus filhos e também de mamãe, nem em ninguém, nem em si mesma, mas no estar-com-ele, sentindo o corpo dele, com todo o desafio que o gesto representa. E ela o afastou quando ele gemia, no final ele devia estar fora, no último momento, o supremo, já estar distante! Em plena união prever a separação.

Ah! A tristeza depois do amor! Depois, ele quis ser companhia até a sua casa, afinal já devia ser meia-noite e Milene devia estar na casa da mãe, sei lá, não apareceu a nossa amiga, e deitando o braço juvenil às suas costas, a aproximar-se mais, e ela toda abalada, tremia até, recusava aquele braço como se fosse confirmação de posse, Não se aproximem! que esta já é minha!, mas que desconfiança boba, as ruas estavam vazias, é muito mais de meia-noite. Então ela se sentou sob uma marquise, ali onde funcionava a padaria até às vinte e uma horas, dia de semana, e até vinte horas, sábado e domingo, e o choro voltava, e não sabia se choraria pelas donzelas ou pelos soldados, se choraria por si mesmo ou para o sorriso sacana do seu querido, Por que eles sempre fazem essa cara de satisfeitos?

Ele, todo envolvente, sentou-se ao seu lado e novamente tentou um abraço, e ela o afastou, ele a ousar convencer a moça a voltar para o abrigo do lar, e ela o silenciou, então ele declarou ter uma idéia, um plano B, assim todo estrategista, ele devia ver muito filme de guerra, e mencionou o amigo, Amigão mesmo, o Heleno. E subiram no primeiro ônibus que passou, que devia ser o último, e voltaram à parte alta do bairro, além da garagem dos ônibus, e a praça.

O casarão todo às escuras, e Hector a contornar a cerca até o quintal, pensando em pular, e sorte sua não ter uma cerca de alta-tensão ou algum cão bravo, mas cão bravo havia e daqui a pouco aparecia!, mas ele se julgava muito esperto, chegaria a janela do quarto de Heleno, lá nos fundos e estaria a salvo, pois o cão bravo não trepa em muro, ela toda assustada, Vai que passa a polícia e a gente é presa?, mas ele tem um quê de autoconfiança que é de tirar o fôlego e arrasta a gente, e Então vai lá, mas vai rápido!

Não, Heleno, você não está sonhando! Sou eu mesmo! Preciso é que você abra o portão pra mim. Estou em apuros!” E o Heleno, num torpor, talvez a sonhar com suas loiras peitudas, acionou o portão eletrônico e segurou o cão bravo, o nome dele é Sadam, imagine!, enquanto entravam pela cozinha, Graças a Deus estamos sob um teto. E no maior dos silêncios possíveis, Sorte ninguém ter acordado, e foram para o quarto do Heleno, onde ele deixou a cama dos hóspedes para a moça tímida, e apontou o sofá para o audacioso mocinho, que não sabia como agradecer, Heleno, você é um irmão pra mim!, Quem isso, cara, você é que é muito louco!

E conseguiram dormir, e ela acordou cedo, a tempo de ver como ele dormia, parecia um bebê, mas bem poderia ser um bêbado, desses que a gente encontra caído nas ruas, agasalhados com roupas em trapos ou jornais velhos. Estaria ele tão desvalido quanto um mendigo? O que fazer afinal? O que ele poderia oferecer? Rapaz a alistar-se, ou a evitar o alistar-se, com projetos de vestibular e faculdade, sem qualquer renda exceto a do papai, então o que poderia fazer? E ela, que nem terminou o mínimo de sua formação? Poderiam ficar juntos? Poderiam fugir?

Não fugiram. Não foram capazes. Deixaram-se ficar mergulhados nos olhares um do outro, estupefactos com a ousadia da ação, agravada a todo momento em que ecoava a voz de Clara Selma, “é assim que você me paga aquela festança?”, uma eterna cobrança a pesar sobre os ombros da filha, refém de tamanha generosidade! Suspensos nos olhares e nas redes da varanda, até que a dona Joana, mãe de Heleno, acordasse e soubesse do feito do casal, “Mas vocês saíram de qual romance?” e Heleno já prepara um lanche com bolachas e geléia, e chocolate quente. Enquanto Joana conhecia Sônia Regina, Hector chamou o Heleno à parte, e logo explicou que passaria em casa para “levantar uma grana”. O que ele nunca deveria ter feito, pois certamente foi seguido.

Mas foi em casa, disse uma mentira qualquer, não deve ter percebido o vulto do padrasto dela, e voltou logo, quando ela, na sala, escolhia CDs junto ao aparelho de som e queria dançar. Dançar junto dele, entenda-se, ele todo tímido, nada entendia de passos e giros e ficou estático, enquanto ela rodopiava e flutuava ao som de certo sucesso pop dos dançantes anos 80, com letras românticas e sonoridades de transe eletrônico, “Essa não é a primeira vez que você tenta ir embora”, diz a canção, e ele segurava firme pela cintura, e ela o arrastava com gestos e sorrisos, os cabelos ocultando o brilho no olhar, “Vá – Não vá! Não poderia ficar comigo mais um dia? Se nós aguentarmos mais uma noite...”, diz a canção, num refrão que não era euforia, mas desabafo.

Sônia Regina saiu do cemitério, junto com o casal, e percebeu que a moça não ocultava os olhos vermelhos, enquanto o rapaz era todo silêncio. Junto ao carro, sob a tília em flor, ela se encolheu e ele a abraçou. Depois, entraram. Em manobras curtas, semicirculares, o veículo deixou o estacionamento e desceu rumo a Avenida Pedro II, até deixar um apagado brilho de farol.

O farol então sumiu e Sônia Regina notou finalmente o escuro da noite. Fez às pazes com a penumbra da rua a surgir à frente, onde seguiria meia centena de metros até a próxima parada de ônibus. Aconchegou o caderno e o livro ao peito e contava os passos, assim fizera naquela distante manhã, dançante, dançando com ele numa brisa a tornar-se tempestade, aquela tempestade de um dia, um dia apenas em que viveram tudo de uma vez!

Ela, cansada de dançar, deixara-se cair na poltrona, e ele foi cair sobre ela, a apertar seu corpo e sugar seus lábios, numa ansiedade imensa que toda uma espera legitima, “Isso tudo parece um sonho, Sônia!”, ele dizia, menos sorrisos, algo solene, com temores de que pudesse enfim acordar. Não se preocupe, querido, logo vai tornar-se um pesadelo. E ele trocou a trilha sonora e o arrastou para a placidez da varanda, sob as samambaias e os crisântemos, e o abrigou em seus braços, como o reconhecimento da longa espera dele, e o ocultou em seus seios, que palpitavam com toda a brevidade do prazer,

Quem um dia irá dizer que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer
Que não existe razão?”

Então, você gosta de Legião Urbana?”, ela queria agradar e assim esperava que a música agradasse. O olhar dele confirmou e ouviram, abraçados, sabedores das tantas diferenças, não tanto quanto os protagonistas da canção, que se amavam em mútuo completar, sim, a menina mística, o menino moderninho, a menina avançada, o menino aprendendo.

E sob a morte-vida da canção, enquanto talvez previssem a brevidade daquele romance, na loucura de um gesto de evasão, perdidos na noite, embalados na canção, abrigados sob o teto de um amigo, um atento ao mistério do outro, aqueles olhares e aqueles cheiros, aquelas descobertas de prazeres, aqueles dedos em carícias e aqueles lábios nos mamilos, aquele volume de que ele se orgulhava e aquela procura de nunca acabar. E nem ousariam juras eternas, pois sabiam que o dia seria único e breve, e almoçaram diante do Heleno, e sua mãe, Joana, mas como se estivessem sozinhos, mais nutridos pelos olhares cúmplices do que pela salada e os espaguete. “Hector, eu sempre considerei você um rapazinho ajuizado, e agora você me apronta essa!”, reprovava a dona Joana, ainda que com olhares de simpatia, e Sônia já estimava aquele apoio velado, toda uma atenção que desconhecia, vivendo entre os “fascistas”, como dizia o Hector, vivendo com uma mãe “irmã do Mussolini”, como dizia, ainda, o Hector, e achando que diálogo fosse uma espécie de benção só destinada aos Eleitos, aos Iluminados, mas ali o Heleno e sua mãe, Joana, descontraídos, recebiam o telefonema da irmã do Heleno, a Helena, não a de Tróia, Helena que é noiva e vai chegar daqui a pouco, e todos aproveitam a sobremesa com chocolate e licor.

Sônia Regina lembra, enquanto espera o ônibus, sob a sombra do muro do cemitério, que ainda ousara uma visita à dona Joana, duas semanas depois, com a mudança marcada, pois seus pais não mais hesitam em afastar a filha de certo ambiente e certo rapaz inconsequente, coitados!, e a muto simpática dona Joana, ainda tão jovem, em conversa jovial num frescor de tarde e comeram pudim e beberam chá de camomila. Não ousaram abafar as lembranças daquele dia e mencionam o Hector, que a terra engolira, o moço morrendo de vergonha, ele obrigado a se afastar, sem rumo no jogo das famílias, que trocavam ofensas patéticas, onde ela, Sônia, era “dessas garotas fáceis”, e ele, Hector, era “um sedutor descarado” ou “um raptor de garotas ingênuas” e, não demorou nada!, ele e ela dedicaram-se a uma troca de ressentimentos. Sônia ainda o encontraria uma última vez, sem sentir qualquer resto de afeto, mas a dona Joana nada saberia.

Foi no fim da tarde que mamãe e o Sr. César finalmente surgiram nas escadarias, acompanhados pelo Sr. Ramiro, o pai do Hector, mas antes Helena deu-se a conhecer depois do almoço, a sensacional Helena!, já apaixonada pela Sônia, e a revelar que Hector não escondera uma paixão por ela, a Helena, mas toda sorrisos, coisa do passado, ela ainda debutante, quando Hector passou a frequentar a casa, o amigo do Heleno, em estudos juntos, unha-e-carne, as lições de matemática ou montando aquelas experiências dos livros de Ciências, dissecando rãs ou fabricando sabão com sebo ou abacate!, sem poupar críticas às bandas pop que Helena ainda ouvia, e aquele vinil do Oingo Boingo não seria dela?, ah, o Hector!, amigo do irmão, mas de olhos grudados nas pernas dela, quando ela andava pela sala, mas o Hector é gente boa!

E as duas ousaram um banho juntas, para desespero do Hector, disposto a dar a vida para contemplar, por apenas um segundo, aquelas duas musas nuas, as duas belezas desejadas, e ele em rodeios diante da porta do banheiro, ouvindo os risinhos delas, claro!, até surpreendê-las de toalhas, elas correndo, mais risinhos, protegendo os peitos, com os cabelos molhados, gotejando ao longo do corredor até baterem com estrondo a porta do quarto de Helena, e quando é ele ao banho, elas é que se apoiaram à porta, ouvindo os barulhos que ele fazia, se gemendo ou não, pois Helena, maliciosa, apostava que ele se punhetava todo, todo tesão, não é, menina?, pois não somos pouca coisa não, que somos duas 'miss', não é?, e ele tem mesmo é que ficar com água na boca, e ele demorava-se, mas saiu todo cheiroso, descalço, aqueles pés brancos marcando o corredor até o quarto de Heleno, a exibir o peito nu, a cobrir-se lentamente de pêlos, e um volume sob a toalha enrolada na cintura, e ria-se aos risinhos delas, e fazia gestos na intenção de deixar cair a toalha, mas era só brincadeira, hóspedes eram em casa de amigos, não vamos abusar!

E mamãe e o Sr. César chegaram e acabaram com a festa, e a dona Joana conversava com mamãe e o Sr. César e o Sr. Ramiro marretavam o pobre Hector, que agora se encolhia, e se humilhava aos olhos dela, que queria, ainda aquela manhã!, fugir com aquele herói, que herói que nada! Nada mais que um moço a gaguejar diante do pai, o sério Sr. Ramiro, e diante de César, o padrasto, que por pouco não o esmurrou ali mesmo, mas trata-se de residência alheia e não podemos abusar. “É assim, minha filha, que você paga todos os nossos esforços?”, gritava mamãe, aquela Clara Selma, toda possessa, “Mas ela não é grata, essa sua filha!”, bradava César Souza, este senhor grisalho entre nós, ecos do que depois descobri em “Romeu e Julieta”, quando desembestei a ler Shakespeare e outros lunáticos, no bom sentido da palavra, e mamãe a arrastar-me sem preocupar-se com os olhares nada aprovadores de dona Joana, que sabia tratar seus filhos, que sabia olhar nos olhos e simplesmente conversar, e ali mesmo mamãe começou a falr em mudança, e que eu seria levada para longe de certo “mau elemento” e nem ousava olhar para o Hector, e quando finalmente olhou, já indo embora, disse “Eu esperava mais de você, rapaz”, e não sei quem entendeu isso, e ele ficou a olhar pra mim, quando me arrastaram, ele ao lado do pai Ramiro, agora silencioso, longe de estar orgulhoso do filho, pois o Sr. Ramiro é “homem honrado e cumpridor de seus deveres”, assim o Hector dizia também, e o Hector ficou todo olhares, e eu aceitei ser levada embora e jogava olhares para trás, não, apenas uma vez, e ele ainda estava lá.

O vulto de um homem descia a rua e o ônibus não surgia. Não que sentisse brotar o medo, mas Sônia Regina sentia um novelo de emoções pesarem sobre o estômago. Ela, que nada comera desde o almoço, sentia um golpear confuso de congestão e fome, de algo que se acumulava e não saía, até que forçasse um vômito, ou gritasse para a altivez dos muros, ou ofendesse com injúrias o senhor que se aproximava, e que até parecia um pouco com o pai do Stevam, outra figura, o Sr. Olavo Lucena, mas era tudo uma anacronismo só, pois quando vislumbrava o Hector ao lado do Sr. Ramiro, nunca poderia imaginar que no mundo haveria um Sr. Olavo, pai de outro estranho rapaz, o Stevam, que só agora, coisa de menos de um ano, ela conhecera. E aquele senhor também estava à espera do ônibus, e à espera de um acontecimento, ou indo para casa ou seguindo para a noitada. Outro vulto nas sombras.

Noite que prometia e noite em que Sônia Regina queria encontrar abrigo. Abrigo não encontrado nos braços de Hector, filho daquele Sr. Ramiro, “homem honrado e cumpridor de seus deveres”, que voltava com o pai para casa, a ser reprovado aquela noite e para toda a vida, pois Sônia nada saberia, nada sabia agora, “Onde está o Hector?”, e o senhor ao lado olha como se ela fosse daquelas loucas a falarem sozinhas, mas é que o Hector já deve estar na faculdade, já pode estar conquistando uma noiva, já deve ter se esquecido de uma garota chamada Sônia Regina Dalmas que ele agarro aos dezoito anos, isso se o Hector estiver vivo...

Ela só o reencontrara uma vez depois do drama, de sonhos e projetos, olhares e beijos, e por intervenção de um amigo em comum, confidente das duas famílias, tipo um Frei Lourenço entre os Montecchio e os Capuletos, para continuar plagiando o clássico inglês, que conseguiu marcar, de parte a parte, um encontro num restaurante, para que conversassem e confessassem, pois o amigo em comum era justamente um padre!, Padre Gustavo, justamente, e ele, diplomata à mesa, deixa o casalzinho à sós, para que se aliviem das mágoas, que reconheçam que não passam de péssimos atores numa encenação escrita por outros.

E o Hector todo cordial, todo remorsos, que não deviam ter feito aquela loucura, querer fugir da família, que agora seremos afastados, que deveríamos é ter paciência, mas toda aquela ladainha me enervava, “Olhe, Hector, não sei quanto a você, mas eu não me arrependo de nada!”, não queria ser grosseira, mas ele se entregou a um silencio resignado e passou uma carta, em folha toda dobrada, onde me considerava “única e insubstituível” e que jamais me esqueceria, e que eu me cuidasse quanto a minha família e quanto a minha família e quanto a outros amantes, agora que estaríamos separados, e aquela aceitação dele, como se fosse destino, e aquela covardia toda, como se fosse resignação heróica, me enervaram tanto que me levantei, deixei-me ser abraçada e fui embora.

E o senhor ao lado lança aquelas olhadelas de sutileza, a pensar o que uma mocinha, assim toda de luto, faz aqui, junto ao cemitério, neste anoitecer de luar e certo vento, uma mocinha que talvez o interessasse, ou passeasse em seus pensamentos e desejos, com essa pose de senhor tão respeitável. E desde que se acostumara a esses tipos, desde que ali morava, meio à boêmia do bairro Santa Tereza, longe da calma da periferia, lá nas ruas escuras do Barreiro, onde crescera correndo para chegar à escola, onde corria para alcançar mamãe em passeios e tantas compras, quando.

Mas o senhor levanta bruscamente o braço! E ela, encolhida, é cegada por um farol, ensurdecida por freios gementes! Contudo, aliviada! É o ônibus que esperava! E o senhor, gentil, a deixa subir primeiro.






(Fim do Capítulo I)



LdeM
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sábado, 11 de setembro de 2010

final do cap. 6 da Parte 1 (Náuseas de Estudante)





Julho/2001

G-8 em Gênova, Itália. Autoridades esperam cem mil manifestantes.

Multidões cinematográficas.

Batalha campal. Confronto com as tropas de choque, os carabineri. Grupos anarquistas em táticas de protesto midiático forçam os policiais a defenderem se atacando.

Carlo Giuliani, máscara, rolo de fita adesiva no braço, é atingido no rosto. Tem vinte e três anos e em seguida será atropelado. Ao redor do seu corpo a exótica geografia de um lago vermelho.

Polícia genovesa continua alegando auto-defesa.





HD e os poentes derramados nas vidraças do apartamento. Ali mergulhado nas sonoridades viajantes de bandas psicodélicas, “Soon oh soon the light...”, num regresso a uma imaginária década de 70, ao lado dos rebeldes de longos cabelos, ao lado dos manifestos pacificistas, ao lado dos filhos dos sobreviventes da Segunda Grande Guerra.

Poentes que se deixavam ficar em cores ora douradas ora esmaecidas nas vidraças, mais ali dentro do que lá fora, quando ele, inclinado sobre a escrivaninha, lia aqueles romances em calhamaços de folhas já amarelas, onde gritos e sangue habitavam as entrelinhas, entre os símbolos tipográficos, como uma imagem atrás do espelho, ressoando e gotejando.

HD e sua vida tediosa, debruçado sobre as narrativas heróicas da Segunda Grande Guerra com seus avanços e retiradas, com os armamentos e os massacres, com a técnica e a histeria, onde a batalha se apresentava à porta e aposentos dos pobres civis, reféns dos exércitos ensandecidos, nos quais os próprios generais se perdiam em suas neuroses, com seus combatentes ao front, afundados em trincheiras ou massacrados em bombardeios ou esmagados por fileiras de tanques blindados e tudo tão insano quanto seus líderes, seus duce, seus fuehrer, seus generalíssimos, seus secretários-gerais, seus primeiro-ministros, seus estados-maiores, seus alto-comandos.

Fora o heroísmo das vítimas, confinadas entre quatro paredes, nos sótãos escuros e mofados, ou nas adegas frias e úmidas, sejam judeus ou comunistas, sejam famílias húngaras ou exilados russos braços, sejam estudantes polacos ou guerrilheiros iugoslavos, não importa, todos de uma forma ou outra, pobres companheiros de uma Anne Frank, reféns, prisioneiros, vítimas da guerra que inoportuna visita às suas portas, sob o clarão diurno do sol ou o clarão noturno dos foguetes, vem de súbito ocupar suas cidades, suas ruas, suas casas, quando todo o mundo se torna parte do imenso e grotesco campo de batalha!

Onde o heroísmo dessas vítimas? Onde o nosso heroísmo hodierno? onde também somos vítimas... Parando em cruzamentos e expostos a armas e lâminas, ou infelizes alvos de balas perdidas ou pálidos reféns de reis do tráfico, ou cúmplices inconscientes da epopéia trágica dos menores infratores, ou humildes e cegos cidadãos encurralados em praças quando de seu matinal ou vespertino cooper, ou mocinhas violentadas e abandonadas em madrugadas desertas do anel rodoviário, ou estudantes esfaqueadas por se recusarem a entregar o tênis de certa marca globalizada, ou idosos abordados em portas de agências bancárias quando levam, além do resto de esperança, um abrigo monetário para remédios e sobrevivência, ou pais-de-família deixados nus no salve-se-quem-puder das terras-de-ninguém dos viadutos metropolitanos, ou, ah, por favor, deixem-me! Deixem-me com minhas narrativas épicas, com os heróis de aço e sangue, longe destas mesquinharias do nosso cotidiano, de nossa civilização e seu poente!




Na hora de ‘puxar angústia’, nos bancos ali da Praça, diante dos bustos solenes dos pais da pátria, em alamedas de ares cinematográficos, com aqueles vultos idosos a relembrarem um passado além da literatura, da qual ambos se deixavam empaturrar até a indigestão, e ao transbordar.

- O grande Nada que somos!

- Como assim? O grande Nada? Somos os herdeiros da razão iluminista, não? Somos os além-do-homem, somos os ‘homens-ocos’, somos os assassinos de deus, aliás, somos os deuses!

- Você está viajando...
- Ao contrário! Somos, ao menos, os assinantes de revistas semanais, somos os torcedores do Flamengo, ou do Atlético, somos os consumidores ávidos, somos os endividados dos “50 anos em 5”, somos os reacionários de plantão, somos os iludidos (ou desiludidos) com o progresso, somos aqueles que devastam o planeta, somos os “últimos românticos”, somos os navegantes dos mundos virtuais, somos os leitores de jornais (sensacionalistas), somos os colecionadores de gibis ou carros m miniatura, somos os desempregados estruturais, somos os individualistas culpados, somos, o que?, somos os bastardos da “indústria cultural”, somos os revolucionários de carteirinha, somos os “anarquistas graças a deus”, somos, mais o quê?, somos os “belos e malditos”, somos os deserdados do Estado paternalista, somos os fundamentalistas high-tech, somos os clientes do mercado global, somos os que rabiscam poemas nas noites de insônia, somos os que guardam cartas de amor, somos os que esperam a salvação, somos o “ódio aos burgueses”, somos os viciados em garotas e cinema, somos os assumidos e travestidos, somos os que “puxam angústia” na praça, porque lemos isso num romance, somos...

- Somos é um poço infindo de paciência, isso sim, meu caro Hector!




“Pronto, terminei!”, exclamou HD na solidão do seu quarto. Olhou pela janela lá fora, e viu o mar e a maré de edifícios a cobrirem-se de luzes, de frestas luminosas. Deu uma olhada para a tela, trocou um “ç” por um “ss” e salvou o arquivo no “Meus Documentos”. Mais tarde, talvez aquela noite ou madrugada mesmo, ele cuidasse da revisão. Por enquanto limitava-se a recostar-se na cadeira e pensar.

Ao número n de contos existentes no mundo fora acrescentado, logo n + 1. Sendo n um número finito, mas impossível de calcular. Quantos contos existem? Considerando-se todos os povos e idiomas. Milhões, não? Como calcular? E o que era um “conto” afinal? Uma narrativa curta? Uma estória concisa? Uma episódio que se esgota em si mesmo? Não sabia. Mário de Andrade dizia que um “conto” era o que o autor considerava um conto. E ponto final. Então, ele, HD, terminava aquela curta narrativa, se despedia das personagens e suas vidas, e dizia para si mesmo, “escrevi um conto”.

E quantos outros não faziam exatamente o mesmo – agora? (igual quanto transava e ficava imaginado quantos casais estariam na mesma situação!) Nada impede que agora um chinês em Beijing acrescente um último parágrafo ao seu próprio conto, em perfeito e estilístico mandarim, e um russo pingar um ponto final (no idioma russo há o ponto final?) em seu conto, em uma dacha nos arredores de Petersburgo, e um alemão esboce, com caligrafia atribulada, um conto, em uma casa pré-fabricada na periferia de Hamburg, e um escritor judeu norte-americano, quiçá futuro Prêmio Nobel!, digite a frase derradeira de seu conto, a ser premiado por importante revista literária de New York!

E, em seu quarto, HD acrescenta o conto n+1 ao espólio cultural da Humanidade, e contribui para a enxurrada, a cascata, o verdadeiro Salto Angel, ou Niagara Falls de informações que se acumulam nas bibliotecas, faculdades, colégios, arquivos de computadores, apostilas, documentos, redações, serviços secretos, que se acumulam e afogam os homens, os civilizados, os cultos, num caos de desinformação – causada por excesso de informação!

É impossível ler todos os livros, folhear todas as revistas, ouvir todas as bandas de rock, acessar todos os sites, imprimir todos os arquivos, comentar todos os ensaios, ler todos os e-mails, responder todas as cartas, divulgar todos os eventos, idolatrar todas as musas do cinema, ah, absurdo dos absurdos, hoje amaldiçoamos a nossa cultura, o acúmulo de milênios, num profundo mal-estar e caímos todos no sambódromo dos lazeres fúteis! Ou alguém se importa com o recém-encontrado conto inédito de um Tchecov?

E HD desliga a máquina, a resolver deixar para amanhã a revisão do conto, pois chega a intimamente temer que, caindo na vertigem de uma súbita náusea (daquelas sartreanas mesmo!), selecione tudo e aperte um “delete” (apagar)!



Provavelmente foi a fome que despertou HD naquela noite de domingo.

Girou o corpo e ligou o walkman junto à cabeceira. Depois do solo de guitarra, o locutor informa prestativo serem vinte horas e trinta e cinco minutos, e aí vem um bloco com duas músicas do mesmo artista.

Tirou os fones e resolveu levantar. Pés descalços no chão frio, pois nem se lembra dos tênis. Assim a dormir demais? A beber demais? Uma boa noitada de sábado! Beijou alguém?

Recapitulemos. Chega de madrugada. Dormi até às duas horas da tarde. Almoça (o último freguês!) na churrascaria assistindo a um final de filme (daqueles nada inéditos!) e u programa de auditório dominical com aquele apresentador-inflado-que-se julga-engraçado.

De volta a pensão, dormira novamente. E o celular acusava duas mensagens recebidas. Darío Sabine. Flávio Toledo.

Agora abre a janela e descobre que chovera à tarde. O ar úmido e frio invade, a levantar levemente as cortinas, meio envergonhadas. Nuvens de vaporação junto aos prédios e ruas novamente se ressecando.

Gasta um tempo, lavando o rosto (para ver se acordava!), trocando a roupa, enquanto medita seriamente se pede uma pizza. Não, já comera pizza ontem! E nem que fosse de calabresa! Melhor um sanduíche natureba (daqueles que o Sabine adora!), mas então precisaria comprar pão de forma.

Desceu até a portaria, ouviu a vinheta musical do Fantástico vazando por debaixo da porta da senhoria, e caiu logo na noite. Muito agradável, aliás.

As ruas logo estarão secas, mas as poças de lama são um perigo ao transeunte desatento. Como é o caso de HD, semi-sonâmbulo.

A menina se chamava Raquel ou Rose? Ou Isabel? Olhos negros, cabelos em cachos. Mas detestava política. Preferia discussões sociológicas sobre as bandas do hit-parade, as inglesas para os de classe média e deprimidos, e as ianques, pop-grunge, para os proletários, mas ‘deslocados’ (ela dissera assim, descolados, nem deslocados, nem revoltados!), e pedia, se pausas, refrigerante de limão (e ela pagando o próprio gasto!)

Talvez Rose, Rosa. Flor, mas nada de romântica. Calça jeans e sem maquilagem. E ele bebeu o quê? Caipirinha, certamente. Pois cerveja era um tédio. E vinho somente o de qualidade. Mas ele andava sem grana...

Na esquina, descobre que a padaria está fechada. Na verdade, acaba de ser fechada. Poucos segundos antes. Ainda havia luz lá dentro...

O jeito agora é a loja de conveniências do posto, mas é pros lados da Contorno. Fazer o quê? Mas nessa lerdeza você vai chegar lá no ressoar das doze badaladas!

Mãos no bolso, contando as moedas, conferindo mentalmente o valor das notas na carteira. Enquanto isso, nuvens se formam acima da sua cabeça.

Esquece das poças, molha os tênis. Também quase-adormecido segue o trânsito, a vida por trás das vidraças, os olhos mesmerizados diante dos espetáculos fantásticos nas cores da TV. Sim, apenas os brilhos de mil cores dos televisores! E carros raros. E pessoas, raramente. E um sono quase eterno sobre as coisas. Mas que vai durar até a aurora... Amanhã é segunda-feira...

Sim, amanhã é segunda! Mas por enquanto é domingo, é fantástico, é globeleza, é namoro na tevê, todo mundo na nostalgia do fim-de-semana, aproveitado ou perdido, pois amanhã é (irrevogavelmente!) segunda-feira, monday! Monday is money!

Mas nada diferente para ele. Sem emprego. E sem aulas. A greve promete se estender e daí não nascerá nenhum domingo sangrento e nenhuma revolução. Apenas não vamos cumprimentar o senhor reitor e vamos pagar as aulas ns férias de verão. Assim, nada há de diferente na segunda-feira (monday is money!) que vem chegado. A cada paso. O domingo agoniza, a segunda-feira revira-se no útero do tempo.

A segunda-feira! A promessa para os trabalhadores, para os patrões para os banqueiros, para os funcionários públicos, para os policiais e soldados, para as donas-de-casa, para as empregadas domésticas, para os agiotas, para os narco-traficantes, para os acadêmicos, para os mafiosos, para as aeromoças e comissários de bordo, para os vendedores de enciclopédia, para os representantes de seguradoras, para... Em suma, para o lucro e o prejuízo nosso de cada dia.

A segunda-feira! Mas ainda é domingo, e sentimos a agonia, lenta e cruel, do ócio que finda. É domingo e o táxi passa, é domingo e a única mocinha nas ruas espera o ônibus, é domingo e o único movimento são os jovens com um carro e seu potente som, abalando a avenida e o posto, com os últimos sucessos e batidas das pistas de dança, enquanto os frentistas até se animam a dançar junto para esquecer o cansaço e o tédio.

Ainda é domingo e façamos as nossas compras, pagando quinze por cento a mais, devido ao local e ao horário. Afinal, é domingo!
Ele juntou os pacotes, conferiu o troco (sempre esse cuidado!) e voltou pelo mesmo caminho.




- Se estou ligando tarde? Dez horas? Mas é domingo à noite! E foi você que enviou mensagem! Pra saber o resultado do concurso público? Mas eu nem fui fazer as provas! Estresse total! Vou tentar aquele da Biblioteca Municipal. Em setembro. Ah, sim, o mês que vem! Semana que vem! Mas a inscrição é até dia vinte. Isso se o mundo não acabar antes! E a pesquisa? Se engavetada? Na verdade, pesquisa tem pouco apoio. Os estudantes nem se interessam. O lance é pegar um diploma e enfrentar o mad max que é o mercado. Si, a universidade virou supermercado, self-service, sei lá. E o que mais aparece é revendedora de diplomas. Aquela velha história: sucatado o ensino público, sobra para o setor particular tirar um lucro bacana. Do you understand me? Se eu estou bêbado? Acha que passei do ponto? Eu passei no posto e comprei pão e vinho. Para a ceia. A minha Santa Ceia! Sanduíches natureba (do jeito que você gosta!) e vinho do Porto. Qual o problema se gastei um quinto da minha mesada? Eu, bêbado? Don’t kidding! Embriagamo-nos sim! Para esquecer, par suportar o fardo (não dizia o maldito poeta francês, ou poeta francês maldito?), para fugirmos de um mundo patético, onde está tudo errado. Mas o mundo continua e nossa embriaguez (desde o ébrio Noé!) o mantém, nossa permanente alienação o sustenta. Embriagamo-nos sim! Para esquecermos nossa condição, e embriagados permitirmos que tudo continue sendo o que é. Sei, sei. Sei tudo isso. Já li a cartilha, eu caro Sabine. Que não devemos fugir, mas permanecer prontos para a ação! Que devemos modificar o mundo! “Os filósofos se contentaram em interpretar o mundo, mas o importante é transformar o mundo!” Modificar o mundo, e não se drogar, não se entregar a putaria... Mas diga-me como vamos viver sem diversão, entretenimento? “Tudo bem, dissipação de vez em quando é bão”, não é o que diz a música, aquela do Skank, mas não continuamos “pacato cidadão, o pacato da civilização”? E não conseguimos ficar sozinhos, não é? Mesmo solitários nas multidões. “Não se pode deixar o indivíduo sozinho, entregue a si próprio”, já dizia o Marcuse, aquele mesmo, o de 68, contracultura, sei, mas não precisa muito, basta ler (com atenção, claro) o romance do Orwell, “1984” ou aquele do Huxley, “Admirável Mundo Novo”, onde o cidadão nunca está sozinho, isso para ele não pensar. Porque se você parar para pensar, você desiste! Pensar um pouco mais nos levaria ao desespero, por isso ‘eles’ pensam por nós! ‘Eles’? Não só papai ou mamãe, ou a mídia, mas ‘eles’, os que tentam seqüestrar nossa subjetividade. “O crime de pensar não implica em morte, o crime de pensar é a própria morte”, está no livro do Orwell. Pois pensar é ir-além do ‘que é’ e imaginar um ‘devia ser’, mas a ordem social está aí, todo mundo de televisores ligados recebendo pronta a interpretação do mundo. Quem me dera receber um projeto de vida pronto, que não precisasse de constantes decisões! (Por isso muitos buscam o consolo das religiões!) Ter aquele ‘sossego’ dos regimes autoritários, onde o Chefe, o Condutor, o Grande Sábio, ilumina o caminho e decide sabiamente a nossa felicidade futura! Como você mesmo já disse (acho que foi naquele almoço lá na Direito...) vivemos numa democracia em construção e precisamos arcar com as conseqüências de cada decisão. Se eu estou falando tudo rimado? Sei lá! É que ando lendo muita poesia! Mas deixa eu falar, pô! (Está ouvindo uns barulhos, ruído na linha? Tem extensão aí? Alguém está nos ouvindo? Não, eu não sou paranóico, e não assisti ao filme, qual o nome?, “Teoria da Conspiração”? Não assisti. Não vou aos cinemas, e não tenho TV, e muito menos aparelho de vídeo. Nem ler em metrô, ônibus, eu leio mais. Cansei. Nauseado. Não li o último episódio do bruxo juvenil e sua simpática coruja, nem acompanho a última série de Stephen King. Cansei, my brother. My Big Brother! Horas de lazer, cinemas, cento e oitenta graus ou não, excesso de propagada comercial, excesso de jornais (quantos você lê por dia? Eu lia cinco! Mas parei, desisti! “Mentir sozinho eu sou capaz”! dizia o Raul), excesso de mercadorias, promessas de felicidade, prazeres supérfluos (sim eu sou do ascetismo como todo bom leninista, moderação e planejamento, meu caro!), excesso de emissoras de rádio, um completo excesso o nosso mercado de bens de consumo, e de bens, e de serviços (personalizados ou não), para a nossa reacionária classe média, para a nossa inculta elite! Sim! Pois o problema antes, vide Indústria Cultural, capítulo 4 de “A Dialética do Esclarecimento”, de Adorno e Horkheimer, era a programação destinada às pessoas incultas, mas hoje a programação é feita pelas pessoas incultas! Nietzsche já avisou! Toda uma elite sem cultura! Quem vai ler Mann e Proust? Quem conservará Mozart e Debussy? Entendeu por que a gente não pode pensar? Ter sonhos, ideais, planos de vida é sofrer decepção. O melhor é seguir o comum, o que parecer pela frente. Ainda que desejem ideais e aspirações o tempo todo sobre a gente, com apelos e propagandas, senão o sistema entre em crise, quem vai consumir? Mas tudo isso, essa de nutrir aspirações, é semear frustração, num mundo onde o vencedor leva tudo, é, “winner takes all”, e como disse o louco Quincas, “Humanitas!”, “aos vencedores as batatas” – fritas! Como sobreviveríamos a tantos imperativos de “consuma isto”, “compre aquilo”, “seja feliz: use o sabonete tal”? Como decidir? (sim, pois você não pode comprar tudo, certo?) pois somos condenados a decidir, não é? Você está m ouvindo, Sabine? Ainda? Pois é. “Estamos condenados a liberdade”, não dizia o francês, o outro, o filósofo, o Sartre. Precisamos decidir, pois as escolhas nos esperam a cada bifurcação da estrada. Fico com a ruiva inteligente ou com a loira boa de cama? Faço Direito ou Medicina? Compro casa ou apartamento? Inicio o mestrado ainda este ano ou vou descansar em Cuba? Entende? Mil escolhas esperando o quê? As nossas decisões! Decidir com base no que sabemos AGORA – e sabemos tão pouco! Na lama da ignorância nós escorregamos! E somos responsáveis por esta decisão, escolhendo A ou B, diante de um eu-futuro, quiçá mais culto e esclarecido? Pois podemos ironizar amanhã a decisão de hoje! O Hector de amanhã atirando pedras no Hector de agora! E inutilmente! (Pois não apenas os outros nos levam a julgamento, mas sobretudo nós mesmos! Claro que os outros são cruéis! Atira e pedem a identidade depois, apedrejam e depois perguntam qual foi o pecado, crucificam e só depois indagam se se trata do Filho do Homem!) Peraí, Sabine! Só um exemplo. Um dia resolvi reunir... Você está me ouvindo? Pois é. Reunir um material que havia escrito, para ver se publicava algo. Rabiscos de 98, 99. Aí quase rasguei tudo. Pouca coisa prestava. Mas não acho certo, não acho digno, isso de ficar julgando a mim mesmo... Ou quem quer que seja aquele de dois anos atrás! Aquele outro Hector, que inda é parte de mim. Viveu intensamente aquele momento em que escreveu aqueles textos. É o eu-de-agora julgando o eu-de-ontem, que será julgado pelo eu-de-amanhã! Mas cada um vive um momento singular, e toma decisões a partir do que sabe! Pode então ser julgado? Não importa se amanhã não julgar o texto, que escrevo hoje, genial! Pois é o genial agora! E ficar debatendo isso é tão ridículo quanto discutir o ‘conflito de gerações’ (generations crash!), como se pudéssemos ironizar os alemães que deram início a Segunda Guerra Mundial ou condenar os norte-americanos por terem encerrado a mesma guerra com bombas atômicas! Podemos realmente pensar que se lá estivéssemos faríamos tudo diferente! Claro, você concorda comigo. Tem razão. É assim mesmo. Uma geração inventa algo que está carregado de sentido e bom senso. Mas aí a próxima geração não compreende e passa a ridicularizar. Afinal, por que andar por aí com uma bengala de freixo (ou ‘ashplant’, se preferir)? Ou usar um chapéu de feltro? Ou por que escrever cartas de amor? Ridículo isso. Não só as cartas de amor... Sei. Mas fala mais alto, sua voz está sumindo... concordo. Pensei nisso um dia. Aliás, quase todo dia. Se a História faz sentido. É mesmo um pesadelo, como pensava o Joyce. Inclusive é dele aquela imagem do chapéu de feltro e da bengala de freixo. É, o Stephen Dedalus em pessoa! E se hoje fosse Bloomsday eu até animava a ler o trecho do episódio quinze. Ashplant. Sugestivo... Mas será que a minha vida tem sentido? Será que continuarei, de episódio a episódio, a andar e perambular, com olhar andejo e alma flâneur? Não serei alvo de quadrilhas de seqüestro? Não serei raptado por mafiosos? Não serei abduzido por alienígenas? Não passarei nenhum Cabo das Tormentas? Não acordarei transformado num medonho inseto? Não serei subitamente processado? Não serei seduzido por uma secretária loira e peituda na ante-sala de um consultório odontológico? Não serei envolvido em alguma conspiração? Não serei torturado no porão de alguma ditadura? Não serei eleito par cargo público? Não serei o novo líder da nação? Não serei o próximo ídolo pop? Não converterei as massas à uma nova religião? Serei somente aquele que anda e anda, a observar os passantes e os fatos e nada fazer? Vitrines com modelitos nos quais não posso tocar? Como é que é? Se estou angustiado? Imagine! Você não sabe o que é angústia. Lembra daquela parábola no “Encontro Marcado”, do Sabino? Sobre o homem que busca uma pedra que transforma metal em ouro, e pega pedra por pedra e batia na fivela do cinto feita de metal, para ver se vira ouro. Assim pedra por pedra, andou e andou. Aí um dia, ao descansar, ele percebe que a fivela tinha virado ouro! Mas quando e onde aconteceu? Ele teve a pedra mágica nas mãos e a perdera por desatenção, então o que ele faz? Começa tudo de novo. A busca. O alvo sempre além! A angústia, meu amigo, my only friend. Acha que estou passando da conta? Acha melhor eu desligar? Quer que eu morra de tédio? Quer que eu me atire desse prédio? Não estou sendo sarcástico? Eu perco a sua amizade! Que isso, Sabine! Nossa amizade tem história! (Não sei se tem sentido, mas tem história!) E nossas discussões desde darwinismo, revolução francesa, revolução russa, Hobbes e Leviatã, as confissões de Rousseau? E aquela discussão que o Flávio começou depois de assistir ao filme “Matrix”? Sim, eu sei. Nem você, nem o Alex conseguiram assistir o ‘movie’. Violência demais? Efeitos especiais demais da conta? Mas pense, noite após noite, as salas de cinema ficam lotadas de pessoas que ávidas assistem a cena s de sofrimentos, torturas, assassinatos, massacres. Vivenciam a violência simbolizada. Toda uma violência que varreram, ou procuram varrer de suas vidas. A monotonia arduamente construída requer a violência esteticamente arquitetada. Imaginemos pessoas que não demonstram qualquer ímpeto violento. Um funcionário público. Um arquivista. Pois bem, este homem senta-se à sua mesa de trabalho, num escritório sóbrio e ordenado, preenche documentos, responde memorandos, e depois, cumpridas as tarefas, passa a esboçar, no verso de um ofício rasurado, um longo conto policial noir, onde nos agride um pavoroso assassinato... Este deixa vazar o peso que sofre... Todo um fardo social... Que fardo? O fardo social pesando (o motor da inércia social) os que muito possuem defendem a posse, os que pouco possuem vivem de promessas, os que nada possuem vivem de esperanças de possuírem também, e os que muito possuem arregimentam os que pouco possuem para manter longe os que nada possuem! Hein... Você está com sono, Sabine? Acha que eu devo desligar? Está citando um poema para me consolar? Ah, eu conheço este poema do Drummond, “Se procurar bem, você acaba encontrando/ não a explicação (duvidosa) da vida / mas a poesia (inexplicável) da vida”. Então, boa noite, Sabine. E desculpe aí qualquer coisa. Como é que é? Eu estou falando demais? Ah, mas isso eu já sei.




Aceitando o convite de Flávio Toledo, HD encontra-se diante do amigo, no restaurante A Romana, pois voltavam a compartilhar apreensões sobre como conseguir emprego. Verdade que Flávio poderia assumir a gerencia do restaurante da família, as havia a irmã, Flávia, que não aceitaria o fato tão facilmente. E HD não era de suportar o gerente de RH (ou não era tolerado, como queiram) e daí a romaria (novamente!) da entrega de currículos.

O restaurante e sua freguesia exigente. Um clima familiar e alguém pedia uma lasanha. O que também interessa ao nosso HD. Afinal, qual o forte do estabelecimento? As massas! Quem quisesse carne que procurasse a churrascaria do outro lado da avenida. A churrascaria que Flávio não perdia oportunidade de criticar.

Mas desta vez a crítica à concorrência foi interrompida. Olhares se voltavam para um dos televisores no segundo ambiente. O único ligado, devido ao pouco movimento do horário. Um panorama de New York. E lá estavam as famosas duas torres do World Trade Center. E uma das torres em chamas! O inferno na torre? Um filme? Não, a TV comercial não mudaria a programação sem um motivo sério.

Afinal era uma manhã de terça-feira e todos esperavam o noticiário esportivo, após as atrações infantis (ou dando continuidade às mesmas). Mas o fato é que a torre está em chamas... Como escapar do fogo e da fumaça à cem andares do chão? E a notícia traduzia a TV norte-americana ao informar que um Boeing colidira com o World Trade Center. Mas o piloto sumiu? Ei, é outro filme! Existe tráfego aéreo sobre Manhattan? O cidadão não viu as torres meio quilômetro acima do chão? Tudo realmente um acidente?

Mas o que importa? É hora do meu almoço! Pessoas estão morrendo? Quantas pessoas trabalham naqueles prédios? Umas dez mil? Umas trinta mil? Nunca me interessei por aquelas torres. Para mim, nunca passaram de cartão-postal. Ei, lembro agora que o Empire State também levou certa vez a bicada de um avião sem rumos. Mas o World Trade Center?? Que parece filme, parece! Aqueles de catástrofes que os ianques adoram!

Não meditou muito. O som da realidade à milhares de quilômetros chega distinto e angustiante e não há palavras para expressar a confusão do jovem estudante de História que se imagina destinado ao esclarecimento das novas gerações. E não meditou mesmo – outro avião (outro Boeing!) surgiu na tela e afundou na outra torre!

Flávia entrou no restaurante, trazendo junto ao peito apostilas do curso de Gerência, curiosa com o grau de tensão no ambiente. Quem pedira a lasanha até hesita em conferir se a degustação valia o preço. Flávio percebeu o olhar da irmã:

- Outro avião acaba de atingir a outra torre do World Trade Center. E não parece ser acidente.

Alguém indaga ansioso se haverá guerra. Pearl Harbour – a reprise! Mas HD desiste de entender, e passa ao outro ambiente. Flávio ao seu lado. Cancelam a macarronada.




Manchetes do dia seguinte: USA Today, “U.S. under attack”, The New York Times, “U.S. attached”, Folha de São Paulo, “EUA sofrem maior ataque da História”, Aviões atingem as torres do WTC em New York, às 8h45 e 9hs, horário local, e 9h45 em Washington, no edifício do Pentágono e, às 10h10, avião cai em Pittsburgh.


Bem-vindo ao século 21!



Escrito em 2006, de 10 abril a 16 junho (Bloomsday!)
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Revisado/Digitado de dez/06 a out/07
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por Leonardo de Magalhaens
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quarta-feira, 8 de setembro de 2010

mais Cap. 6 de Náuseas de Estudante


[...]


Flávio e a sua má notícia. Danificaram seu carro na tentativa de roubo. HD lamenta que a violência esteja sem controle. Mas sabe que lamentar nada adianta.

Poucos guardam seus ressentimentos. Daí a agressão dos que não têm: por que esse cara com esse carro e eu aqui sem?

E seguem justamente sem carro – até a oficina. Flávio tem pressa em rever o veículo, fruto de investimentos de um ano e meio.

- O pior é que te assaltam, e se você nada tem de valor, eles te enchem de pancada! Culpado você, que nada deixa pra eles!

Grupos de rapazes ocupam as esquinas meio a fuligem dos veículos. Que futuro está reservado para eles? Haverá ao menos um futuro? O que podem fazer além de esperar e trocar desconfianças e suspeitas? Numa idade de reafirmação do Eu!, de integrar enquanto homem e cidadão, toda exigência não seria encarada como humilhação?

- Você não acha que há todo um excesso? Digo, de população?

HD ouviu a pergunta com surpresa. Afinal, Flávio não sabia sobre seus estudos neomalthusianos? É verdade que não aparecera na famosa palestra, mas comentários soltos deveriam ter dado uma idéia de suas preocupações.
- E o número de igrejinhas, daquelas de porta de bar? Uma semana você passa lá e um boteco. Na outra, eis uma igrejinha, assembléia, sei lá! Isso quando não alugam o ex-sacolão com três portas. – Flávio se preocupava com este neo-protestantismo emocionalista e (como ele dizia) pelego. Aos pobres, o Reino dos Céus!

- Boteco ou igreja, eis o ópio do povo! Cachaça ou o evangelho, basta escolher. “Todo mundo tem sua cachaça.”, já dizia o Drummond, “Para louvar a Deus como para aliviar o peito

- Ei, nada de jogar a criança fora junto com a água suja! Você entendeu o que eu disse! – Flávio se incomodava, pois não abandonará a religião (e nem essa o abandonara), e com certa freqüência até, comparecia à missas e atuava em alguma obra voluntária na comunidade. Seu socialismo católico deveria estar acima de qualquer suspeita.

- Você anda muito leninista, Hector!

Desciam rumo a avenida do Contorno, quase gritando um ao outro, meio ao tropel de frenagens e buzinas. Flávio concorda com o diagnóstico marxista, mas discorda dos métodos. Revolução? Nem pensar!

- O povo está numa boa, Hector! Não vê? Preocupa-se com a derrota da Seleção Brasileira. Pior se levassem uma bala perdida em Bogotá!

- É verdade. Acreditam viver no melhor dos mundos possíveis. É um povo ‘cândido’ este! Voltaire adoraria nossos espécimes nacionais... Isto quando não defendem o sistema como se o tivessem inventado, igualzinho ao seu cunhado, o Augusto. Estes são os melhores auxiliares de seus coveiros, ajudam até a afiar a lâmina dos carrascos...

- E você não perdoa a cara, hein? Ele lucra e para ele está tudo OK!

- Mas não é assim que funciona?

A banca de jornais. Estratégica. Cidadãos deixam a pressa, numa pausa para correr os olhos sobre as manchetes. Política no escuro. Crise energética. Governistas barram CPI. Julgamento do caso Massacre no Carandiru. Aumento de juros. Queda da produção. Copa América na Colômbia. Cirurgias financeiras na Argentina. O que mais? Deu tempo de ler tudo? Eu bem que disse, com um time desses! Não passou de Honduras! E a base governista se esfarela. O coronel bem pensando que tratava-se de um campo de concentração. E não era?

- “Estão menos livres mas levam jornais /e soletram o mundo, sabendo que o perdem

- Hein? Drummond de novo?

E haja crise! Crise energética, crise da desvalorização, crise do mercado auto-regulado, crise de confiança popular no regime democrático. “Quem lê tanta notícia?”, já indagava o Caetano!

E nisso adentram a oficina. Aliás, HD não entrou, deixando-se ficar à porta, a observar o transito no que havia de comum e os transeuntes no que havia de inusitado. E estava realmente drummondiano esta manhã de segunda-feira. Mulheres passam cheias de pernas, vestidos carregam cores e desejos, o homem de bigode e o homem de óculos são a mesma pessoa. E as manchetes provam que o mundo é realmente vasto, mas que se aproxima ao toque de um celular, ao ícone da internet.

A recepcionista tem um piercing na sobrancelha esquerda, mas não importa. É um charme. Flávio prefere a morena, toda sorrisos.

- A loira, tirado o piercing, até que eu topava. – e acelera subindo a rampa. Seguem rumo ao Pio XII. Papa fascista?

Pois é. E uma das marcas do fascismo é a uniformização. Se você não se encaixar no padrão que o sistema – ou mercado – determina, você está excluído. Mas a exclusão pode ser sutil. Como? Quando você se auto-exclui. E trata-se de uma exclusão não apenas quando se é menos favorecido financeiramente. Mas esteticamente. Pois jamais andamos em tamanha liberdade (você pode pintar o cabelo de verde e exibir um piercing na língua), mas desde que você pague, consuma.

Flávio dividia a atenção entre os semáforos e as palavras de HD, sempre didático.

- Há o modelo a ser seguido e muitos o seguem por assim alcançarem o prazer que buscam e a realização de seus desejos e fantasias. Mas o mundo do consumo faz transbordar o sempre-querer, a insatisfação constante...

- Sei. O cara quer a loira e a morena ao mesmo tempo.

E é mais fácil seguir o figurino, se adaptar e obter os prazeres que a Babilônia oferece. No entanto, observe. Alguns destoam desta conformidade e adotam estéticas bizarras. As peles com pigmentos coloridos, ou envoltas em vestes sombrias. Longas cabeleiras ou moicanos de mil cores. Adornados com artesanato de origem oriental, indiana, ou indígena, ou carregados de correntes e cadeados. Em coturnos agressivos ou sandálias neo-hippies. Em suma, destoam se auto-exilam.

- Mas fogem de uma padronização e caem em outra.

- Certo. Lembre-se que os jovens, os adolescentes, são os mais intolerantes. Precisam reafirmar sempre suas identidades - as quais não percebem ser mutáveis - e desprezam, ironizam os que não se encaixam na estética da anti-estética.

- Todos contra todos? Digo, tribo contra tribo?

- Sim, assim é. Cada tribo contra todas e todas contra o que convenhamos chamar de ‘sistema’, o tal formalismo que desprezam.

- Mas o meu formalismo é sempre melhor...

E Flávio quase atravessa a Amazonas no sinal vermelho. – E eu com esse co-piloto!
- Desculpe. É que eu me empolgo.

- Eu sei.

E deixaram para conversar no escritório. Flávio já chegou pronto para ligar o computador. Precisava ler os e-mails, sua correspondência digital. Enquanto o programa inicializava, foi ajeitando a mesa. Quando a empregada se apresentou, pediu laranjada e torradas. E olhava HD, pois sabia que o amigo continuaria a palestra.

- O que eu dizia é que toda essa exibição de não-conformismo não consegue formar uma maneira de subsistência alternativa, não dependente da economia de mercado, digamos. Ou são sustentadas pelas generosas mesadas dos pais – que são do sistema – ou andam como marginais, na venda de artesanatos ou serviços supérfluos, à margem da vida alienada dos formalizados.

E Flávio conseguia o prodígio de ler suas mensagens virtuais e acompanhar o monólogo de HD, sentado junto a janela, mirando ao longe uma antena de telefone celular.

- Deixa eu ver se entendi. Você quer dizer que quando chega a idade de assumirem suas própria vidas, os, digamos, não-conformados são obrigados a se conformarem? Digo, a se enquadrarem nos padrões que desprezam e dos quais discordam?

- Sim, e com amargura. Trabalham para um sistema que condenam, e ao qual jamais vão se adaptar. Infelizes por estarem fora da caverna e com os olhos ofuscados, enquanto os demais permanecem nas trevas do cotidiano rotinizado.

- E pior, no fim, executam serviços subalternos, inferiores, o que vem a humilhar ainda mais.

- É fato. Mas não queremos com isso dizer que é melhor se enquadrar logo de uma vez, o mais cedo possível. Longe disso. Mas sim saber canalizar o desconforto social para tarefas coletivas, em prol de mudanças na estrutura. Pois é evidente que não se cria um sistema alternativo sem esforço coletivo, ainda mais na arena política que é a democracia.

- É mesmo. Não ideologias, no sentido político, mas fantasias. Comunidades no seio da natureza, ou nostalgias das brumas medievais.

- A ausência de Estado? Complicado. Mas se você ressaltar que sem o Estado regressamos ao estado de natureza, que é o que disse o Hobbes, eles acham que você é que é o fascista da vez.

- Fora aqueles que desejam somente evasão...

- Sim. Esses depressivos da vida, esses nostálgicos da vida placentária, esses inadaptados, esses ineficientes, em busca da comunhão do prazer, das drogas, do álcool, da loucura em pílulas. Esses ‘filhos enfermiços da vida’, como diria o Settembrini, do Mann...
- E daí a auto-exclusão. – Flávio apagava as mensagens inúteis. – Ninguém elimina os tais, já que se eliminam a si mesmos no mundo neodarwinista...

- Não do mais forte, mas do mais injusto. Num sistema de injustiça onde réus e vítimas se confundem, e os culpados quase nunca aparecem. Não é por ser forte que o condutor (fueher, duce) está lá em cima, mas por estar lá, apoiado por elites – que fazem girar as engrenagens – é que o líder é forte. Forte, forte, em verdade não se aplica aqui – oportunista sim. Veja o Augusto. Um forte?

Flávio volta-se com sorriso irônico. – Mas você gosta do cara, hein?

Um mal-estar? Flávio defendia Augusto, ou era apenas ironia? Augusto que não suportava a presença de HD. Inclinado diante dos monitores, Flávio se assemelhava levemente a Augusto, pelo menos em atitude. Não que ficasse proclamando contra o mundo gritando contra a surdez das paredes. Flávio sabia ser prático, enquanto Augusto sabia ser trágico. Mal conseguia segurar o casamento, que fora uma bela conveniência (para ele, claro), a se arruinar a olhos vistos.

E Flávio saberia das infidelidades do cunhado? Se sabia, era bom ator, pois não interferia. A irmã toda cabisbaixa, com toda a beleza do mundo. Mas o que é ser traída? Somente ela saberia. Toda a beleza do mundo – e traída! Mas Fabiana (a irmã) estava grávida e haviam as convenções sociais e haviam as colunas sociais.

HD assim meditava enquanto aceitava as torradas, agradecendo. A serviçal se retira discreta. Bem mais velha esta. A família está mais sensata em não empregar jovens. Em certa época Flávio era um perigo! farejando as coitadas. Mas um bom rapaz, não por ser meu amigo, mas um bom sujeito.

E se ele, o HD-zé-ninguém, fosse o eleito, sob os olhares de Fabiana? Poderia fazer a mocinha feliz? Augusto fizera promessas. Augusto que passa longe de ser um Zé-ninguém, mas que também não era um Zé-alguém! Entenda-se!

Mas ele não viera para se intrometer na vida do amigo. – Por favor, esqueça. Esqueça.

Mas Flávio mordiscava as torradas, sem mágoas.




Junho/2001

Enquanto o antiamericanismo ganha força, com atos terroristas em bases norte-americanas pelo mundo, ativistas, ecologistas, sindicalistas e outros descontentes continuam em manifestações. Barcelona, que aguardava uma reunião do
Banco Mundial, foi perturbada pelas multidões (oito mil!) em evento organizado por mais de trezentas ONGs!

A coisa além de televisiva está ficando cinematográfica!




Não precisou de qualquer despertador para abrir os olhos. Nem sequer programara o despertador. Simples, a explicação. Hoje é sábado. Nada de faculdade, nada de ônibus lotado pela manhã, naquele frio da manhã. Gracias!

Então vira-se na cama. Ele está sozinho numa cama de solteiro. Não há qualquer odor de mulher, ou perfume que evoque mulheres e ele está só, tão só como se pode estar. Aí, o que HD faz? Liga o rádio sobre o criado-mudo.

Isso: tédio – e liga o rádio.

Uma estação deixa vazar um sertanejo brega. Seu braço se estende, com a cabeça imersa no travesseiro e todo preguiça, e muda o dial, Istoé, a sintonia. Explode um rock rural, algo parecido com música caipira mas com guitarras elétricas!

Novamente o braço se estende e alcança o seletor. Sintonias se alterna. HD se vira, encara o teto. Branco ou bege claro? Muito cômodo este apê do Flávio. Em pleno Gutierrez, logo valorizado. Precisa terminar o trabalho de estatística,mas onde está a reserva de ânimo? E a segunda parte do resumo sobre a Guerra Fria. Aliás, todo um trecho sobre Governo Goulart. Mas ainda não concluiu uma introdução sobre os seis meses de Jânio Quadros. O homem da vassoura. E que bigode! E as forças ocultas...

Agora vem flutuando um pop inglês. O que é isso? Oásis ou Blur? Prefiro um Rolling Stones. Melhor, certamente, um WHO.

Sintonias se sucedem. Cânticos evangélicos, dance dos anos 80, pseudo-informações, na rádio que toca notícias, mais sertanejo brega, alguém informa o preço da cesta básica, alguém grita um rock gospel, em glória ao, e de súbito um Rap made in USA, logo um rap made in periferia paulista, e um sertanejo de raiz, com viola caipira e o que há, e mais pop inglês, será Belle and Sebastian?, mais temos MPB dos anos da Ditadura, a turma do Caetano e demais exilados, london, london, tropicalismos afim, e um pastor em entusiasmo de sermão!, certamente a expulsar enfermidades e demônios, e agora musica instrumental aleatória com destaque para os seixos em tubos de PVC, além de notas recentes de um berimbau tecno-tribalista, outro pop do fundo do baú, um YES segunda-fase, ou Emerson, Lake and Palmer decadente, depois um lance mais jazz e bossa nova, não se sabe se em dialeto carioca ou andaluzo, e um rock nacional datado, a dizer que “não posso viver sem mim”, um ultraje afinal!, além de pérolas da Jovem Guarda, os dois Carlos, obviamente, e mais pseudo-informações, barril de petróleo, uma reação da Bolsa do Rio, ainda bastidores da venda da grande estatal do minério.

Virou-se de lado e coça o saco. Boceja e outro giro no seletor. Sintonias, etc. Novo rock nacional sem letras sem música sem nada, mais informações, nível de venda de televisores, então pérolas do ritmo latino, vamos para o Caribe nas próximas férias?, numa estação, só música estrangeira, para quem tem bom gosto, e quem não tem?, mais notícias descartáveis, e forró com um diferencial: é forró gospel, e leituras do horóscopo, e seu número de sorte hoje é, e mais MPB cult, e certo cantor gringo que apareceu do nada, e mais rap engajado, agora a trilha sonora da novela das oito, um voz feminina sedutora de boate, e mais notícias, rebelião em presídio, fuga em massa e repressão das tropas de choque, alerta máximo nas forças de segurança, helicóptero faz pouso forçado em terreno baldio, mudou o um dia!, agora uma batida funk para os felizes habitantes das favelas, ops, das ‘comunidades em risco social’, o movimento dos aeroportos, Confins, Santos Dumont, Pampulha, Tom Jobim,, alguma notícia sobre as loiras peitudas a bordo?, mais rock gospel, e mais um rock nacional sem o que dizer, e mais notícias sobre as oscilações do dólar, e um pastor (outro?) a repreender os fiéis (vergonhosamente!) inadimplentes, e uma entrevista com importante dramaturgo carioca, então música nova de certa banda pop irlandesa, notícias sobre futebol e o campeonato nacional, mais numerologia e astrologia e conselhos esotéricos, uma balada romântica, um hino religioso, uma trilha sonora de filme de gangsters, uma balada da loira-pecadora-queimadora-de-cruzes, na cama com, mais sermão, mais horóscopo, mais fofocas do meio artístico, mais pop made in USA, mais um locutor a anunciar prêmios, “cole seu carro no nosso adesivo”, e modelos, camisetas, bonés, patins, bicicletas, e outras promessas, inclusive a locutora vai de brinde, que se for tão bonita quanto a voz, mamãezinha!, mais notícias, mais escândalos nos bastidores políticos, ilustre colega o senhor é um cabra-da-peste, perdoe-me o epíteto, mas vossa senhoria é um condutor-de-jegues, com seu partido de vendidos, deixe-me falar, que seus jagunços, os filhos-de-uma-bezerra, e uma vaca volta o traseiro zombeteira e o nome do álbum é “Atom Heart Mother” de uma banda inglesa, conhecidíssima, chamada Pink Floyd, a vaca não deu um berro, mas balança o rabo tal uma baqueta e assim está regendo toda uma orquestra, pois no sonho tudo é possível, e HD vai sonhando, enquanto o álbum gira e gira.



Julho/2001

“Nosso mundo não está à venda, ponham os banqueiros na cadeia!”, são os gritos dos manifestantes, com bandeiras do
Partido Comunista, nas ruas de Salzburgo, Áustria, onde quase mil ativistas, segundo a polícia, ou mais de dois mil, segundo os próprios manifestantes, ameaçam romper as barricadas. Enquanto isso, confortavelmente instalados, cerca de setecentos empresários e políticos participam das performáticas discussões sobre o futuro da economia mundial.

Operação de segurança? Efetivos recrutados? Calcula-se acima de sete mil policiais.



O que atraiu HD foi uma certa turbulência naquela tarde de sexta-feira. Sexta-feira comum.

Quando chegou à Praça Sete o tumulto já estava formado. Calçadas totalmente ocupadas por manifestantes, com brados de descontentamento, enquanto estudantes acusavam a falta de vontade política do senhor prefeito, e das autoridades incompetentes, e dos senhores secretários relapsos, enquanto os professores empunham cartazes com denúncias que não são novidade, enquanto livre-pensadores repensam o grau de anomia e aleatoridade do sistema.

O que os professores querem? O que se espera enquanto profissionais: respeito. Os gritos acompanham HD até o bandejão da faculdade de Direito. Comeu sem ânimo, mecanicamente. Lembra do almoço, acompanhado por Darío Sabine, ali mesmo, meses antes, e que bela discussão literária e humanista eles tiveram!

Lá embaixo o Parque e suas sombras convidativas. Mas precisava passar na agencia dos Correios. Afinal, prometera enviar uma carta ao amigo Alex, e era melhor cumprir a promessa logo. Mas quando saiu do prédio, já foi envolvido na balbúrdia de apitos e vozes de protesto, quando um carro de som trafegava conclamando a massa a manifestar toda a indignação represada, Que o povo é cordial, mas não é trouxa!

E seguindo o carro de som, em turbulenta procissão, mais faixas, apitos, brados, palavras de ordem, exaltações até com certa exultação, crianças de mãos dadas consigo mesmas, ou com empolgados professores e professoras, mais apitos, transeuntes seduzidos pela histeria, policiais de prontidão, sindicalistas sentindo a fervura de seus quadros, mais brados, Por incompetência do governo é que os alunos estão sem aulas!

Sem aulas? E HD não estava sm aulas? Quase um mês! Férias? E a culpa não era tão somente do senhor prefeito. Federalmente fodidas as instituições de ensino estavam sucateadas. Nada original, mas é assim mesmo: sucateadas.

E um caminhão exibia sua torre de transmissão. Uma equipe de repórteres se posicionava. Havia eletricidade no ar. Todos muito tensos, câmeras trêmulas.

Policiais, idem. Mesmo atentos. Afinal, os professores estavam acampados na portaria da Prefeitura! E veículos táticos já ocupavam posições estratégicas da Praça Sete até o Palácio das Artes.

E tudo parecia uma imensa encenação, protagonistas e antagonistas, e a massa de manobra enquanto figurantes. Criancinhas de cara pintada levantam os punhos contra o vazio, enquanto papai e mamãe gritam, imaginando-se nas vésperas da revolução, naquela manifestação já neutralizada, abortada desde o início.

Fantoches? Não seria cruel pensar assim? Afinal lutavam, se indignavam, e ai de nós! Se um dia deixarmos de sentir indignação! E chega dessa empolgação de jogo de Copa do Mundo! Empolgações histéricas de pão e circo!

Mas não existia uma certa empolgação desse tipo ali? Um vazio semelhante? Saíam às ruas fantasiados. Saberiam que sem representação política tudo aquilo não passaria de espetáculo e adrenalina?

Lutavam para ter o direito de terem deveres! Lutavam por ser melhor remunerados ao servirem ao sistema! Um sistema público em decadência! Veja por aí a quantidade de escolas e faculdades particulares!

Política: Política Estudantil. Vários convites. Comissões. D.A., DCE, vozes elevadas de estudantes. O estudante que se envolve em política logo é ‘monitorado’. Os professores ora respeitam ora desconfiam, os diretores se enchem de cautelas. Lá vem o rebelde, o subversivo! Não, não é pra mim! Preciso é terminar aquele trabalho sobre o Max Weber...

Os repórteres se dispersavam junto a multidão que já se mesclava ao tumulto da Praça Sete. (Do Acaiaca e suas carrancas até a Praça e seu pirulito começava a formar-se um isolamento!) E o carro de som manobrou antes de contornar o Obelisco e abriu em leque a multidão, no vão livre da Rio de Janeiro, arrastando os manifestantes, enquanto os repórteres filmavam tudo freneticamente, ora escalando o obelisco ora subindo nas árvores do canteiro central, enquanto as forças policiais contornavam o perímetro da Praça e impediam a entrada (e também a saída!) dos que protestavam. Ms os transeuntes e os curiosos eram envolvidos na manobra de sítio, e HD foi pego na pinça gigante!

O caminhão da imprensa já se reacomodara na calçada da Amazonas e o trânsito nem existia mais. Tropas montadas manobram na Carijós e isolam o outro lado. Os manifestantes se percebem cercados. E previam isso desde o início! As forças policiais cuidavam para que a manifestação se mantivesse pacífica, sem agressões físicas ou danos patrimoniais. Isso é o que as forças policiais diziam. Mas eram hostis e esquentavam os ânimos dos indignados cidadãos.

Só faltava a faísca. E esta brilhou quando a multidão se percebeu compacta, e os grupos periféricos tentaram furar os bloqueios. A polícia então desceu o porrete!

[...]

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LdeM

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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

cap. 6 [cont] de Náuseas de Estudante


(do diário de HD)


março/2001


Andando na Praça, sábado à tarde, observo os garotos de skate. Indiferentes ao medo, na ousadia das manobras arriscadas, nada de hesitação, só aquela vontade de provar para si mesmos (e para os outros) que pode fazer: tornar-se um-com-o-risco. Salto, giro duplo. O skate é um membro de seus corpos magros e acrobáticos, artistas do circo das ruas.

Contagiado pela coragem e ousadia deles, levantei-me e desci a avenida Brasil. Sol e sombra se alternam, céu nublado. E a boca seca. Casas fechadas, janelas cerradas. Cidadãos se abrigam, temerosos da insegurança cotidiana. Atrás de alarmes, correntes, cães bravos, cercas eletrificadas, portões eletrônicos. Condomínios com seguranças particulares, cabines e câmeras. Circuito interno de TV, o velho olho-mágico, a tranca dupla, tripla, acionada à cartão-magnético, e de novo o cão bravo.

Os muros e as grades nos protegem de nosso próprio mal.” (Engenheiros)

os assassinos estão livres, nós não estamos.” (Legião)

O medo no olhar, na voz hesitante (apreensiva!) ao interfone, “Quem é?”, “Sou eu, querida. Apenas eu.” Mas o que sou eu? Devo me apresentar, “Aqui o meu cartão, madame” Pois não. Meu olhar lhe agrada? Meu sorriso lhe enternece?

Somente os skatistas em ousadia. No mais, medo e ruas vazias. Ou madames levando os poodles para um saudável passeio. Mas deixando as jóias no cofre, claro. Este senhor, na parada do ônibus, leva a mão a testa, úmida em suor nervoso, num alívio quando não o abordo, Quem ele pensa que eu sou? Mas não importa, há apenas o medo de viver. Eu invejo a ousadia dos skatistas. Em manobras impossíveis, ainda que o resultado seja aquela horrenda casca de gesso, coberta por centenas de assinaturas. Em constante risco, sem hesitar, nem que isso custe aquela cicatriz profunda e explícita!

Cheguei à Lagoinha num entardecer cinzento, de nuvens baixas que são até opressivas. Uma hesitante promessa de chuva.

A polícia só funciona quando assassinam delegado...”

A voz se eleva diante de uma banca de revistas e jornais, debaixo da passarela. Um senhor, no respeito que exige seus cabelos brancos, é ouvido por um interlocutor que poderia ser seu neto. O jovem está mais preocupado é com as modelos das capas obscenas.

Sigo, ferido pela arquitetura em ruínas da Lagoinha, bairro que Naína dizia ser o “mais feio que ela já conheceu”. Tudo aí abandonado, essas fachadas com adornos que mais parecem arabescos (alguma tradição ibérica?), que, imaginemos, lá anos 20, 30, eram a jóia da capital.

Na avenida Antônio Carlos, avenida estreita para tanto tráfego, os ônibus passam com os torcedores ensandecidos que descem da farra do Mineirão, em pleno carnaval sobre rodas!, num entardecer úmido de sábado, beijando a camisa com o símbolo do time do coração, seja alvinegra ou azul celeste, ou mesmo, vermelha e branca, o time do coração, nem sempre o campeão, todos adeptos do pão e circo do futebol.

E então percebo um vulto que solicita um trocado, a incomodar-me, com sua roupa suja, sua fala sem nexo, seus fonemas embolados. Estendo negativas, mantenho a distância, minha frieza o intimida, e ele desaparece nas ruas estreitas.

Inútil esperar policiamento.

Lembro de outras tardes de sábado, quando voltava do Campus e ainda saía na noite, ao lado de Darío, ou de Naína, deixando o cansaço na brisa noturna. E vou pisando em poças d’água e alma. A chuva vai se animando. Mas tudo bem, um bom banho quente vai aliviar o cansaço do corpo (e quiçá da alma).

Estava aqui a escrever, quando apareceu o Flávio. Ele e o tabuleiro de xadrez. Insiste em ensinar-me o mais cerebral dos jogos. Anoto que comecei com um peão e depois o peão da rainha. Ele move o peão do cavalo do rei e depois o bispo do rei. Flávio está agitado. Trabalho, faculdade, família. O namoro com Stella. Que ela é um doce de garota, mas às vezes falta empolgação. Mas amor é assim, uma chama que vai se apagando. Para ele tudo é um peso, tudo pesa e o esmaga. Enquanto eu vivo na leveza, a insustentável. Ele sob o peso (as muitas toneladas) da vida social, das convenções. Eu às voltas com minha liberdade, áspera, de tempo livre, vivendo de Bolsa estudantil, de aulas particulares. O Flávio ainda sufocado na prisão acolchoada.

O que aflige o Flávio é o seguinte: “o saber e não poder mudar”, ou “saber não causa mudança, a menos que todos saibam”, ou ainda, “Ou a mudança é social, ou não há mudanças; se você propõe mudança e não há alcance social, você está sozinho. É declarado subversivo, e será isolado, quando não eliminado.” E o Flávio move o peão do bispo da rainha DELE.

Ora”, eu disse, “o cara precisa saber a quem tal conjectura de ‘desordem e regresso’ é lucrativa. Mas quando descobre, logo se alia aos ‘manda-chuvas’, pois é assim que se recheia o cofre. Afinal, você vai remar contra a maré? Você, pobre pulga, vai desafiar o elefante?”, e ele, “Pois é, o cara sozinho nada significa. Fica louco, ou dizem que ele é louco. Ou mete uma bala na cabeça. Seria mais individualismo, e o que importa é a mobilização social.”


Eu, meio que recriminando, “E você que continua a andar com esse Augusto! O indivíduo perfeito, enquanto consumista! Individualismo, quando? Só vejo a ‘massa de manobra’. Antes indivíduos íntegros, plenos de si mesmos, e não seres fragmentados, incompletos, que precisam consumir para se satisfazer. E jamais serão satisfeitos! E também o problema não é o materialismo, como aí pregam os religiosos...”, e eu movia o cavalo do rei.

Ele, “Sei o que você vai dizer. Que espiritualismo é regresso, que é esperar o mundo-do-além, num resignar-se agora. E o materialismo? O que o Everton dizia? O materialismo é o trabalho, a transformação, o progresso. Que nunca se produziu tanto, mas também nunca se concentrou tanta riqueza para alguns.”

Eu, de olho no bispo da rainha DELE, “O bolo cresce, mas na hora de dividir, alguém carrega cobertura e recheio.

Ele, prevendo minha jogada, “E aqueles sujeitos, lá na faculdade, todos cheios de si, prontos para apontar o dedo, filhos da burguesia, ou sociólogos de classe média arruinada, enquanto sociologia burguesa legitima a desigualdade.”

Eu, “Você criticaria a estrutura que favorece a sua classe? Se o jogo favorece os seus interesses, então mascaram a falta de oportunidades. Imagine os tantos Einsteins que podem surgir caso houvessem bons livros, cursos e professores! O garoto nasce com um cérebro calibrado, mas jamais vai abrir um livro de álgebra! Entende? Os homens são desiguais pois desiguais são as oportunidades e suas posições na sociedade, esse imenso tabuleiro de xadrez!”

Ele, de olho na rainha, “Mas as pessoas não são iguais. Algumas são mais simpáticas, até carismáticas! Gênios! Outras são apagadas, ‘sem sal’. Comuns. Uns mais líderes e ambiciosos que outros. As pessoas não são iguais. Os serviços prestados também não. Digamos que os meus restaurantes têm um melhor atendimento ou um melhor tempero ou um menu mais exótico... ou uma atendente mais jeitosa.... Isso fará com que o restaurante lucre, afinal será mais bem freqüentado do que outros. Eu ficarei rico e os concorrentes em apuros. O que o Estado social poderá fazer para impedir a desigualdade?”, e moveu a rainha, “Pois nesse Estado, de ideal marxista, não há lugar para os ‘golpes de mestre’, onde não encontraríamos um Henri Ford, por exemplo. Um sujeito para pensar além do seu tempo e criar algo novo, um empreendedor! Pois se o Estado fornece tudo e acomoda todos...”

Eu, preocupado com a rainha DELE, “Olhe, Flávio, muito cerebral esse seu argumento. Coisa fina. Mas você está muito preocupado com o Estado! Como se o Estado fosse o ‘grande Pai’, sei lá. O Estado só coordenaria, apaziguaria... Nada daquele Estado totalitário. Agora, se o tempero do seu restaurante é melhor do que o da esquina, então merece ser mais bem freqüentado. O Estado interviria se você quisesse comprar o restaurante da esquina e começasse a monopolizar o mercado de refeições, ao formar um cartel, algo assim...”

E eu percebo que há um bispo ameaçador. E que tenho o rei em maus lençóis. É sempre assim! Eu m empolgo com a discussão, e descuido da defesa, “não se deixe corromper por quem ‘puxa os cordões’”. Ele prepara o grand finale, “E fique longe da banda podre.” Preciso aceitar o xeque-mate.

Abril/2001


Medidas de segurança em Quebec. Cúpula das Américas. Chefes de Estado, e diplomatas, e funcionários, e delegados, e jornalistas, e muitas outras sempre ocupadas autoridades, entre miríades de documentos e propostas aguardando assinaturas.

Os manifestantes parecem que saíram daqueles filmes dos aos 70, naquela paranóia do Vietnam, com sua juventude de brados heróicos, em roupas coloridas, cabelos revoltos, em pregação por valores ditos alternativos, em vontade de deitar no verdejante relvado da natureza e declarar o entranhado ódio a todas as máquinas.

E enquanto estimam a multidão (ou multidões!) de quinze mil manifestantes, as autoridades movem as peças do tabuleiro e deslocam a infantaria de oito mil policiais para a área de segurança.

A-20. Lojistas protegem as vitrinas com medo de quebra-quebra. Quebec se transforma numa cidade sitiada. Governantes prometem ouvir representantes de ONGs, numa esperada Cúpula do Povo. Coitado do povo, não podemos deixá-lo sempre excluído! Mas os ativistas não querem migalhas e denunciam que o tal tratado de livre comércio visa a estabilidade apenas das empresas, que seriam garantidas contra ações sociais e medidas governamentais de seguridade social. Ou seja, nada pode limitar os negócios, nada pode barrar os lucros!

Mais multidões com macacões de operário, óculos de natação, capacetes de pedreiro, máscaras contra gás e botas militares.

Mas para quê, meus caros, se a própria cúpula reconhece não ser relevante, para quê? Gostam tanto assim de balas de borracha? Ou das lágrimas lacrimogêneas? Ou das carícias das forças policiais?





A camisa de flanela esvoaçando ao vento, HD foi descendo para a parada do ônibus, que logo apareceu (e sorte maior!) vazio.

Parando junto a roleta, para pinçar as notas da carteira, ele viu à sua direita, uma garota com cabelo pintado. Face pálida e vestida de preto. Ao seu lado, uma amiga. Inusitadas as Maria-chiquinhas no cabelo curto.

Equilibrou-se, atento ao corredor a sua frente. Sentou-se lá no fundo. O ônibus vazio. Nada demais. Devia ser umas onze horas da matina. E ele devia estar na faculdade. Mas sem comentários.

A cobradora gracejava com uma mocinha sentada junto a roleta. Um senhor abraçava uma mochila e uma valise. Uma parada, brusca frenagem. Uma bela mulher que entrava. Óculos escuros, vestido até os joelhos, blusa branca, realçando as curvas dos seios. Morena, cabelos pretos lisos.

Aproximava-se, olhar altivo, a escolher um lugar, e HD torcendo mentalmente para que ela se sentasse ali ao alcance da mão. Nada. Sentou-se antes do homem com as malas.

No segundo ponto da ladeira, entra uma mulher com um menino, ágil em passar sob a roleta. A mulher já gastara seu dote de beleza e não fulgurava mais em encantos. ‘Depois que consegue encantar o homem e agarrá-lo, e assim procriar, a mulher começa a perder seus atrativos. Deixa-se relapsa, descuidada, e engorda, ou abusa na maquilagem.’

Antes da avenida, desce uma mocinha acanhada, agarrada a sua bolsinha amarela, a qual HD nem percebera. Ninfas anônimas no transporte coletivo.

Seguindo para o complexo dos viadutos, o lotação parou, a esperar um caminhão que despejava areia, diante de uma construção, até muito adiantada, com vultos pendurados em andaimes assobiando para as passageiras. Logo, o ônibus seguiu viagem, em espasmos.

Com a rodoviária à esquerda, o homem com as bagagens preparava-se para descer. Alçou a mochila aos ombros e agarrou a valise, a seguir meio trôpego. Desceu ainda meio às tontas.

Aí HD viu a cabeleira roxo-laranjada da garota lá adiante, que o homem eclipsara. ‘Ah que belo arco-íris, minha querida!

E a cabeleira radiosa tal um sol virava-se, ondulava, voltava-se para o colega ao lado. Trocavam risinhos. Cabelos soturnos-iridescentes. Roxos, mas luminosos, fios que irradiavam, brilhavam, num arrepio de cores.

Atraído, ele pensava em mil abordagens, ditos picantes, frases dúbias, mas nada fazia. Aí quem ia descer era a morena de óculos escuros. Pernas que mereciam estudo, uma monografia inteira, um tractatus philosophicus! E os pés, então! Em sapatilhas negras, em... Não, não! E as unhas?! Um esmalte levemente róseo, mas num tom de pele, um polimento...

HD viajava na beleza daquele corpo, mas não esquecia a fragilidade que convivia com aquela beleza. Sim, era frágil a mulher! Bela, belíssima. Mas uma fragilidade no vestido esvoaçante, nas pernas bem torneadas, nos braços que se agarravam as argolas pendentes do teto. Tudo fragilidade.

Ela desceu e ele ainda a seguiu com o olhar, inclinado para a janela (ela quase tropeçou na calçada...) E depois ficou suspirando à falta dela. Restou um perfume.

Amores anônimos. Algum dia será que vejo a bela morena de novo? Mas as duas pequenas feiticeiras continuavam a bordo. Lá fora as multidões da avenida Afonso Pena. A que ele palmilhara, entre atento e fantasista, quando viera visitar o amigo Darío Sabine.

- Você devia ter ido, Michelle! Foi uma festa do caramba...
A colega patricinha com aquele ar de normalista de butique. O olhar faceiro da pálida de cabeleira arco-íris. E os corpos carregados de desejos desceram para a calçada tumultuada e ele ainda pôde segui-las com o olhar. Belas musas urbanas, que entravam justamente numa ... butique!

Ah, Michelle ma belle, par gentilesse, um poco de votre attention... Que bela luz pálida tua pela irradia.’

Um ponto antes do Parque, ele desceu. ‘Será que ainda reencontrarei a bela e pálida Michelle?’

E aí entrincheirou-se na primeira casa lotérica que encontrou. A opção (o plano B) seria aquela fila do banco, a quinze passos voltando. Mas (falência do plano A) na lotérica, o sistema (que unia os computadores) estava fora do ar.


Fora do ar? Imagine todo aquele dinheiro lá! Se é que há, de repente tudo não passa de dígitos no circuito integrado, uma moeda puramente eletrônica, cybergrana! Dinheiro não circula, pois encalha no banco. E se precisar dele – enfrente as filas! Aí o sistema fora do ar? O dinheiro todo digitalizado e o povo sem um vintém!

Se tivesse um papel qualquer no bolso, escreveria um poema sobre o cyberdinheiro.’

O incômodo era geral. Um senhor, a sua frente, comentava seu extrato. A atendente ao balcão esclarecia que ali não. Só aceitam pagamentos e saques, nada de outras movimentações. A mulher, às suas costas, coçava distraída a unha encravada do pé direito e, esbarrando nele, pedia insistentes desculpas. Comentava com a vizinha o preço do sacolão popular. Duas crianças brincavam, com apitos, dentro da loja. Uma mais pequenina chorava, tentando se evadir do colo protetor da mãe, a última da fila.

A fila, que mais parecia um caracol, uma serpente enrolada sobre si mesma, os últimos incomodando os primeiros, era uma verdadeira aula de antropologia social. As filas de pagamentos e as de jogos se interpenetravam, e ninguém entendia mais nada. Um segurança surgiu, insistindo em impor ordem.

Será que todos os cidadãos num raio de um quilômetro vieram pegar grana logo aqui?’ Mas uma aparição desviou seu desconforto, com imagens mais agradáveis. Algo de indígena, morena clara, mais sensual que a mulher no lotação. Linda de causar tremores – e acompanhada! Se apoiava em seu homem tal uma serpente ao redor do tronco, toda entregue e toda insinuante, provocante. Mas uma escandalosa fragilidade. Para que ficar sempre se apoiando no homem? O homem que mantém sua atitude de senhor. ‘O macho se excita com a fragilidade submissa da fêmea? Ela submissa ao furor do desejo dele?

HD ali na fila a conciliar as lições de antropologia neodarwiniana com o desejo que o invadia. Só a espera de uma sorriso, uma aprovação? Mas ela nem o notou! Só olhava para o homem! O homem naquela superioridade: há uma mulher dependurada em mim! Ele tolerando a mulher como se ela rastejasse aos seus pés pedindo atenção e apreço. Ela percebia? Sentia prazer, sabendo? Ela se esfregando, sem pudores, com aquele olhar de serva entregue, aprovando todos os gestos dele, toda a autoridade dele!

Mas HD estava com inveja! Alucinada inveja! Ele queria ser o homem a quem aquela mulher submissa se agarrava! Ela a ajeitar a roupa coladinha ao corpo sensacional! E ele, o homem, como a dizer que era comum a situação: ele andar com belas mulheres, que trocava como quem trocava de camisa de flanela. Pois o homem estava ali tal uma estátua de indiferença, como alguém que come um prato fino como se fosse arroz-e-feijão e ovo cozido. Um mulherão daqueles e o cidadão olha de cima, como se olha um animal de estimação!

E ali diante do casal da aula de antropologia, o sedento, o faminto de desejos, Hector Dias, estudante, vinte e quatro anos, que há três meses está sem sua garota, consumindo-se em punhetas cotidianas e vespertinas! E ainda mais indignado porque queria ser o homem! Aquele cidadão ali com seus trinta, trinta e cinco, respeitável carreira e suntuosa conta bancária! E com aquela fêmea sedenta (dezoito? vinte anos?) grudada nele! E ele, HD, olhando para ela do mesmo jeito!

E lembrou-se (enfim!) do olhar de Sônia Regina, na noite da fuga, quando ousou enlaça-la pelo ombro com aquele sentimento de posse! O homem exibido sua mulher, indicando a todos – ela é minha!

O olhar da Sônia! Ela sabia! Ela estava rindo dele. Ela sabia! O papel que representava aquele homenzinho de dezoito anos. E ela não aceitou o abraço. Ela o afastou com um sorriso irônico. Pois ele não beijava tão mau como garoto de quinze? Para que então ousar abraçar a menina? E no ônibus, depois, não foi o mesmo? Ele insistira, e ela dessa vez nem sorrira, Por favor, Hector!


Sim, ele devia ter se comportado. Nada de abraços para os outros. Se ele era o homem: que isso ficasse entre eles. Importava que ele fosse homem para ela – apenas. Não para toda a turma de colegas dele.

O casal logo se foi embora e as imagens de Sônia e Naína se misturavam. A mais remota e a mais recente! As pernas da morena do ônibus se confundiam com as da morena da lotérica. Os vestido se diferenciam – um claro, meio cinzento, e o outro, negro, escuridão luzente – mas o mesmo vestido, o da fragilidade, o do esmagamento da mulher, da submissão da fêmea. O macho só consegue gozar se dominar a fêmea. Tem que ver a mulher abaixo de si para dominar e saciar-se nela. Gozo de macho que se sacia e deixa saciada a mulher.

Ele, o indignado Hector, era homem e não iria longe em suas meditações. Mulheres! Seres de saias que só eram completas se tivessem um homem do lado. E a desculpa-mor: é a natureza que as fez assim. Desamparadas. Um vazio a preencher.Mas ele sentia um ar fétido de sociedade naquela sujeição das mulheres. Mas ele não era feminista e logo voltava a deseja-las, mentalmente sempre rebaixando-as. Ele sabia que tendo uma mulher ao seu lado, ele a trataria como aquele homem enlaçado pela morena submissa. Olhando de cima para baixo. Assim como se um homem forte olha um homem fraco.

Mas finalmente o sistema estava operante e nos abismos dos desejos de HD precipitavam as morenas, a inteligente Selma, a sardônica Sandra, a desamparada Sônia, a caliente Naína, a loira do casarão do jardim de orquídeas, a loira da loja de flores, e muitas outras, ninfas desconhecidas, musas urbanas, que ele não ousara se aproximar, interferir em suas vidas, puxar um papo, pegar na mão...

Mas aí chegou a sua vez, passou o cartão magnético, confirmo a senha, e novamente o processo todo, e sacou a grana, mas já foi ao guichê o lado pagar as contas. Luz, água, prestações da máquina de escrever, o sapato de fim-de-ano.

Saiu pensativo, mãos nos bolsos, resguardando as notas remanescentes e na calçada seguiu contra o torvelinho turbulento dos transeuntes. Ele nunca aprendia, jamais aprenderia a andar naquelas calçadas de metrópole , pensando, tropeçando, colidindo, desviando-se apenas par colidir novamente, em bêbados, mendigos, cães sarnentos. Sentia rasgar suas entranhas as estridências de buzinas. E olha os outros. Não pareciam ligar a mínima. Viviam bem na Babilônia. Eu estranho tudo isso. Nasci aqui, mas não fui criado aqui. Não cresci em cidade grande. A periferia é uma praia de tédio. Mas e tantos que nascem, crescem, se formam em ruas entulhadas de urbanas neuroses, e ainda estranham?

Se os nossos amigos da ‘tábua rasa’, Locke & Cia, estivessem certos, com aquele papo de formamo-nos aqui, são estes aí aqueles que são um-com-o-mundo, formados na cidade grande à sua imagem e semelhança, um-com-a-cidade. Por isso andam por aí como se nada os surpreendesse. A cidade é uma extensão de suas mentes...

Pensamento interrompido por uma colisão, Mil desculpas!

Mas e aquele lance do Heidegger: estar-aí? Como se prontos fôssemos jogados no mundo? Mas pode ser assim: Um-com-o-mundo e de repente um estranhamento! Quantos estrangeiros em sua própria cidade! Se fôssemos meros produtos do ambiente em que nos formamos então não haveria deslocamentos, inaptidões, seres desadaptados – a não ser por problemas orgânicos, cognitivistas...

Nova interrupção: um cão latia para um caminhão que passava. Sim, mas daí a dizer que os desassossegados são doentes? Meio segregação isso? Mas a cultura liberta ou aprisiona? O individuo só é autônomo (e não autômato!) se desperta meio ao que o formou (o que fizeram dele) e assume a direção de sua existência.

Agora um gari de lança a sua frente visando recolher os sacos de lixo, voltando à rua, quase sendo trucidado por uma carreta. Pô, esses caras arriscam a ida para sobreviver! Enquanto isso, jovens em flor seguem fascinadas pelas calçadas diante dos atrativos das vitrines.

Onde eu li isso em Sartre? O caso é cheio de poréns. Aquela ali não larga o celular. O óculos escuro até combina. Mas se os desadaptados não são doentes, são o quê? Não somos todos iguais por efeito de temperamentos e educações diversas, mas se fôssemos todos os produtos do meio seríamos identificados com esse meio, não seria um exterior estranho nem o sujeito estrangeiro na própria terra. Pois não nasci formado. Ser-no-mundo dá a idéia de que algo-não-do-mundo-se-encontra-no-mundo! Sou ser-igual-ao-mundo, formado no mundo? Ou alguém-algo que caiu de repente no mundo?

Descobriu diante do Palácio das Artes, e resolveu subir para a avenida João Pinheiro, alcançando a avenida da escola de Direito. Andar é a melhor forma de pensar...

Cheiro de incenso. Bancas na calçada e garotas com vestes indianas. Incensos de todos os tipos e para incensar nossa ida ocidental moderna.


Lista de leituras: Hume, Locke, Heidegger, Sartre, “Mal-Estar na Civilização”, Freud! Se eu-fosse-um-com-o-mundo-que-me-formou não haveria mal-estar! Eu aprenderia desde o berço a controlar as minhas pulsões, minhas renúncias instintivas... História tem um montão! Quem? Ora, desde Heródoto, e Gibbons, e a Queda de Roma, os dramas históricos de Shakespeare. Também a Escola de Annales... Le Goff, Lebvré, as formações urbanas no século 19. historiadas mentalidades, estruturalismodescontrutivismopósmodernismo.

E seguia pensando pesado! Três mil anos de História goela abaixo em dez anos! Atravessou outra fila de banco, que se derramava quarteirão abaixo, dir-se-á um transbordar de gente, de vestes da moda, de gestos irritados, de faces transtornadas. Mas todos exemplarmente mui civilizados!

E as ‘renúncias instintivas’? Uma hora de pé, ali, aquele monte de mulheres encantadoras a passarem, oh, angústia existencial! Ver todas aquelas vitrines abarrotadas diante de seus olhos e nada poder comprar! Nada poder levar para casa e ser diariamente bombardeado pela TV que só se é bacana com tal e tal produto, essa e aquela marca, de confiança inabalada! Abraçado todo sorrisos com uma mulata folia nacional! E ele ainda a perguntar-se sobre o mal-estar na civilização?

Os homens não são iguais, ‘uns mais iguais que outros’, letra de música isso. Grande novidade! Aqueles ali babam, seguem com olhares ávidos as garotas com suas coleções de cartões de crédito. Mas tudo isso porque quero me integrar ao jogo e não posso! Eu tenho que me resignar! Fingir que não é comigo. O sistema segue assim: a fazer-me crer que serei feliz em lutar para estr lá – no topo! E em reproduzir essa correria até o pódio, onde alguns sempre correm na frente!

E nisso, HD alcançou a parada de ônibus, após ter se desviado da banca de revistas. Outras elegantes ‘Michelles’ desciam a avenida. A hora do almoço se fazia anunciar pelas fragrantes iguarias dos self-services com balança, e pelo sutil tilintar de talheres na ladeira acima. Engravatados afrouxavam gravatas, casais em sutil acasalar.

O ônibus frenético desce da Praça e quase atropela um catador de papel que acaba de ‘estacionar’ seu carrinho de papelões e frascos descartáveis.

Depois da irritação (devido às renúncias instintivas, como visto) vem o tédio, e eis que, uma vez dentro do ônibus, ele reclinou-se e caiu numa letargia. Coisa de semi-cochilo. Onde a imagem da moreninha ao seu lado flutuava junto com o perfume, com a alça do vestido, não, não era vestido, era a blusinha, ela estava de calça jeans, com a alça a cair e logo sendo reajeitada. Outra frenagem e outra arrancada, e a alça caía, e os dedinhos deslizam a ajeitar a seda sobre a seda do ombro bronzeado. O tempo todo.

Êta alcinha chata, hein! Teimosa que só ela! Vai bem, a garota? Mas era só miragens, imaginação! A alça no lugar, o sorriso da garota, a mão sobre o ombro, o gracejo entre ambos.


Não se tratava inda da dama da lotação. Talvez ela existisse apenas na mente de um Nelson Rodrigues.




Junho / 2001


Protestos marcam a reunião da União Européia em Gotemburgo, Suécia. Praça de guerra no centro da cidade. Barricadas e depredações. Tumulto por mais de doze horas. Multidões! Dez ativistas para cada policial!

Para Noam Chomsky, a problemática é social, não política.
[...]
LdeM